Fortaleza (CE), 2 de fevereiro de 2026 — Uma investigação da Polícia Civil do Ceará (PCCE), em parceria com o Ministério Público do Estado (MPCE) e a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco), desvendou um processo sistematizado de recrutamento, conhecido no meio policial como “batismo”, que resultou no cadastro de 692 novos supostos membros da facção criminosa Guardiões do Estado (GDE) em diversas regiões do estado.
A lista, encontrada em um aparelho celular apreendido em uma operação deflagrada em 2025 na Grande Fortaleza, continha dados pessoais, “vulgos” (apelidos usados no crime), regiões de atuação e até o papel pretendido dentro da facção por cada participante. Dos 692 nomes, 353 foram identificados como integrantes ativos da organização criminosa, muitos atuando em municípios cearenses fora da capital.
Como funcionava o “batismo”
Segundo os investigadores, o processo de ingresso não era informal: os interessados enviassem, via mensagens, uma série de informações, como:
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Fotos e vídeos
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Vulgo e funções desejadas dentro da organização
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Bairro ou cidade de atuação
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Chamada de vídeo com lideranças para confirmar identidade
O procedimento tinha um padrão rigoroso, quase que burocrático, o que facilitou a identificação desses cadastros durante a análise dos dados do aparelho apreendido.
Líderes e aparato interno
No centro da estrutura de recrutamento estava Mathias Mesquita Lopes, de 20 anos, conhecido como “Príncipe da Paz”. Mathias atuava como representante do “quadro de fiscalização” da GDE e era responsável por avaliar os cadastros e gerir os novos integrantes. Para dificultar a detecção pelas autoridades, ele usava o e-mail da mãe para armazenar dados dos “batismos”.
Outro nome que chamou a atenção dos investigadores foi Francisco Wellington Moreira da Silva, apelidado de “Arroz”, apontado como líder de um grupo de mensageria chamado MP – CAUCAIA, que reunia faccionados da região. A partir da análise do celular deixado por ele durante uma tentativa de prisão em 2024, os policiais descobriram a estrutura de cadastro em massa. Arroz foi preso em abril de 2025, em Morada Nova (CE), e atualmente está detido na Unidade Prisional de Quixadá.
“Caixinhas” e arrecadação interna
Além da adesão à facção, a investigação revelou o pagamento de mensalidades — chamadas de “caixinhas” — por parte dos membros cadastrados. Pagamentos de valores entre R$ 50 e R$ 100 eram feitos regularmente e comprovados por meio de capturas de tela de transações bancárias. Esses valores eram somados e repassados a uma conta atribuída a Francisco Samuel Sousa de Oliveira, identificado pelos investigadores como responsável pela rede financeira da organização criminosa.
Um delator, que afirmou ter integrado o chamado Conselho Final da GDE, chegou a relatar que a arrecadação mensal poderia variar entre R$ 120 mil e R$ 125 mil — indicador de que o grupo ainda dispunha de considerável base financeira antes do início desta investigação.
Violência e retaliações
O mesmo delator, identificado como Antônio Euden da Silva Lucas, foi assassinado três meses após prestar depoimento ao 2º Distrito Policial, no bairro Sapiranga, em Fortaleza. Ele relatou detalhes do funcionamento da facção e afirmou que foi decretado de morte após “rasgar a camisa” do grupo — expressão utilizada para indicar sua deserção do GDE.
Disputa entre facções e alianças
Conforme a apuração desta reportagem, a GDE perdeu áreas estratégicas de tráfico de drogas em Fortaleza durante confrontos com o Comando Vermelho (CV) e acabou por **se aliar ao Terceiro Comando Puro (TCP) no final de 2025, como forma de resistir às pressões de rivais.
Fontes policiais afirmam que vários membros da GDE adotaram diferentes caminhos diante da ofensiva do CV: alguns migraram para a facção carioca, outros aderiram ao TCP em busca de “proteção” e continuidade de atividades criminosas. A principal fonte de renda do grupo passou a ser a exploração do jogo do bicho, superando até mesmo o tráfico de drogas em determinadas áreas.
Especialistas ouvidos por veículos de imprensa apontam que a presença de facções como TCP no Ceará é parte de uma dinâmica nacional de expansão dessas organizações além de seu território de origem, trazendo desafios adicionais às forças de segurança públicas.
Passo a passo do cadastro criminosa
De acordo com o dossiê policial obtido pela equipe de reportagem, o processo de “batismo” envolvia uma série de etapas padronizadas pelos responsáveis pelo recrutamento:
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Envio de print de chamada de vídeo com cadastrador
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Foto fazendo gesto simbólico ligado à facção
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Apresentação de histórico criminal
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Dados cadastrais completos do suspeito
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Número de telefone com chave PIX atrelada ao nome
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Confirmação no sistema prisional SIGEPEN
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Visita posterior a outros faccionados
Esse modelo de acesso facilitou a identificação de centenas de supostos membros pelas autoridades responsáveis pela investigação.
Contexto
A operação que revelou esses cadastros integra um esforço maior das forças de segurança do Ceará para desarticular grupos criminosos organizados que disputam territórios e mercados ilícitos no estado. A investigação agora está sendo dividida em 20 ações penais, com a prisão preventiva e medidas cautelares já decretadas contra diversos envolvidos.
Conclusão: A descoberta de um processo estruturado de “batismos” de cerca de 700 pessoas em uma facção criminosa mostra não apenas a capacidade de expansão desses grupos, mas também os métodos sofisticados de recrutamento e arrecadação que desafiam as autoridades de segurança pública. O caso segue em andamento com desdobramentos na Justiça e novas etapas da investigação.
Fonte: O Diário do Nordeste
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