Um sofisticado esquema de tráfico internacional de drogas, com ramificações no Ceará e conexões na Europa, foi alvo de investigações da Polícia Federal (PF) e denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF), revelando um sistema criminoso que recrutava pessoas para transportar cocaína em voos internacionais.
A chamada Operação No Show, deflagrada pela PF em 6 de maio do ano passado, resultou no cumprimento de 25 mandados de prisão e 28 de busca e apreensão, emitidos pela 11ª Vara da Justiça Federal no Ceará. A investigação identificou ao menos 49 envolvidos em um esquema transnacional de tráfico de drogas.
O modus operandi das “mulas engolidas”
O grupo criminoso utilizava pessoas recrutadas — muitas delas vulneráveis a ofertas financeiras — para transportar cocaína ao exterior de diferentes maneiras: ingestão de cápsulas contendo a droga, ocultação em cavidades corporais ou fixação no corpo com fitas adesivas. Esse tipo de transporte é conhecido no meio policial como “mulas engolidas”.
A investigação se intensificou após a prisão de dois homens no Aeroporto de Fortaleza em 2023, flagrados com cocaína colada ao corpo enquanto tentavam embarcar com destino a Paris, na França. Os detidos colaboraram com a PF e detalharam o funcionamento da rede.
Segundo os relatos, as “mulas” eram aliciadas tanto no Brasil — particularmente na Região Norte — quanto no exterior, para transportar drogas até centros de distribuição na Europa. O esquema, de acordo com a denúncia, movimentou cerca de R$ 4 milhões, e a Justiça Federal autorizou o sequestro de bens avaliados em até R$ 8,7 milhões dos investigados.
Estrutura da quadrilha e acusações
O líder do grupo foi identificado como Davi Bento de Oliveira, apelidado também de ‘Japa’ e ‘Scorpion’. Segundo o MPF, ele teria coordenado o recrutamento de “mulas”, compra de passagens aéreas, pagamentos e até intimidado participantes e familiares — incluindo ameaças e uso de arma de fogo.
Entre os 13 denunciados pelo MPF, estão também estrangeiros ligados à preparação e transporte da droga. O surinamês Owen Carl Van der Kamp é apontado como responsável por desenvolver invólucros resistentes e dispositivos de ocultação dos entorpecentes para o transporte pelos corpos humanos.
Outros acusados teriam funções de recrutamento, logística e movimentação financeira da quadrilha. Uma das denunciadas, Jeanne Caroline Yoma, natural da Guiana Francesa, é suspeita de ter transportado drogas usando passaporte europeu.
Defesas e processo judicial
Alguns réus contestaram as acusações em suas defesas. A defesa de um dos envolvidos alegou que não existem evidências que liguem seu cliente diretamente ao esquema e classificou sua participação como periférica, típica de uma “mula” sem poder de decisão ou comando.
O caso segue em andamento na 32ª Vara Federal do Ceará. O processo também envolve desdobramentos em outros estados brasileiros, como Amapá, Pará, Mato Grosso e São Paulo, bem como conexões com países europeus — incluindo França e Portugal.
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