PF aponta deputado Júnior Mano como líder de esquema que desviou R$ 800 milhões no Ceará

 



Foto: Ascom

Investigação revela organização criminosa que atuava com emendas parlamentares, fraudes em licitações e financiamento ilegal de campanhas em mais de 50 municípios cearenses

A Polícia Federal concluiu e encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) as investigações que apontam o deputado federal Júnior Mano (PSB-CE) como chefe de uma organização criminosa estruturada para desviar recursos públicos no Ceará. O esquema, que teria movimentado R$ 800 milhões entre 2020 e 2025, envolvia desvio de emendas parlamentares, fraudes em licitações e financiamento ilegal de campanhas eleitorais em mais de 50 municípios do estado.

 

Segundo o relatório da Polícia Federal, o parlamentar é apontado como "figura estruturante" de uma rede de corrupção que operava com a cobrança de percentuais sobre emendas — tratados internamente como "imposto" ou "pedágio" — que variavam entre 12% e 15% dos recursos destinados a prefeituras aliadas.

 

Como funcionava o esquema

 

As investigações revelaram que Júnior Mano atuava em parceria com Carlos Alberto Queiroz, o Bebeto do Choró (atualmente foragido), na articulação para destinar emendas parlamentares a municípios estratégicos. Em contrapartida, parte dos recursos era desviada para abastecer um caixa paralelo usado tanto para influenciar licitações quanto para custear campanhas políticas.

 

"A associação entre esses diálogos e a presença ostensiva de figuras do Congresso Nacional na agenda política do grupo liderado por Bebeto do Choró — como Eunício Oliveira e, em outra frente, o próprio deputado federal Júnior Mano — sustenta a hipótese de que os esquemas de corrupção eleitoral, desvio de recursos públicos e financiamento de campanhas operam com respaldo e articulação direta em esferas federais de poder", detalha o relatório da PF.

 

A investigação aponta que, depois de eleger os aliados, o grupo controlava as prefeituras, direcionando licitações para empresas vinculadas à organização criminosa. Pelo menos 16 empresas participavam do esquema, e nove delas receberam de prefeituras cearenses cerca de R$ 455,5 milhões entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025, segundo análise da Controladoria-Geral da União (CGU).

 

Diálogos revelam funcionamento da organização

 

Quebras de sigilo autorizadas pelo ministro Gilmar Mendes, relator do caso no STF, revelaram mensagens de WhatsApp, e-mails e planilhas que registram a operação da organização criminosa. Os diálogos mostram o envolvimento do deputado em tratativas para liberação de recursos e cobrança de propinas.

 

Em uma das conversas, Adriano Bezerra, identificado como assessor de Júnior Mano, aceita prontamente proposta de apropriação de 12% sobre emendas parlamentares de R$ 1,5 milhão, "respondendo de forma imediata e sem qualquer estranhamento, o que indica que tais tratativas constituíam prática corriqueira", segundo a PF.

 

Os investigadores também encontraram diálogos que mostram Júnior Mano solicitando patrocínio de R$ 200 mil ao cantor Wesley Safadão para um evento em Nova Russas, cidade onde sua esposa, Giordanna Mano (PRD), é prefeita. O relatório sugere que o pedido poderia ser uma "solicitação camuflada de propina" ligada a shows contratados pela prefeitura.

 

O cantor, que não é investigado, afirmou em nota que "não possui qualquer envolvimento político com as pessoas mencionadas" e que pedidos de patrocínio são comuns no setor de eventos.

 

Relações com autoridades

 

As investigações também revelaram mensagens de Júnior Mano com diversas autoridades, incluindo o ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, a quem o deputado pediu para acelerar a liberação de aeronaves do cantor Wesley Safadão pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para uso durante a campanha eleitoral de 2024. "Vou andar nesse [avião] menor nas campanhas, não aguento mais carro", disse o parlamentar ao ministro.

 

Alguns deputados que são citados pelos investigadores, nas referidas investigações não mencionaremos neste momento, tendo em vista, que as suas menções aprarecem, como mera conversa sobre articulação politica. Não havendo nada relevante a prática inlicita, pelo menos até agora.

 

Bloqueio de bens e crimes investigados

 

O ministro Gilmar Mendes determinou o bloqueio de R$ 54,6 milhões em contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas investigadas, com o objetivo de interromper a movimentação de valores de origem ilícita e preservar ativos para eventual reparação ao erário.

 

Os investigados podem responder pelos crimes de:

 

· Organização criminosa com fins eleitorais

· Captação ilícita de sufrágio (compra de votos)

· Lavagem de dinheiro

· Falsidade ideológica eleitoral

 

O que diz a defesa

 

Em nota, a assessoria do deputado Júnior Mano negou qualquer irregularidade e afirmou que o parlamentar "não tem qualquer participação em processos licitatórios, ordenação de despesas ou fiscalização de contratos administrativos".

 

"Como parlamentar, o deputado não exerce qualquer função executiva ou administrativa em prefeituras, não participa de comissões de licitação, ordenação de despesas ou fiscalização de contratos administrativos", diz a nota.

 

O texto acrescenta que o parlamentar "reafirma sua confiança nas instituições, em especial no Poder Judiciário e na Polícia Judiciária Federal, e reitera seu compromisso com a legalidade, a transparência e o exercício probo da função pública. Tem plena convicção de que, ao final da apuração, a verdade dos fatos prevalecerá, com o completo esclarecimento das circunstâncias e o reconhecimento de sua correção de conduta".

 

A liderança do PSB na Câmara também se manifestou: "Esperamos que todos os fatos sejam investigados e esclarecidos o mais breve possível, respeitando o devido processo legal e a ampla defesa".

 

Próximos passos

 

Com o envio das conclusões da investigação ao STF, caberá agora ao ministro Gilmar Mendes analisar o material e decidir sobre os próximos passos, que podem incluir a abertura de ação penal contra o parlamentar. As investigações, no entanto, continuam para aprofundar a possível participação de outras autoridades com foro privilegiado.

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