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| Foto: Reprodução |
O
sucesso ao tentar reeleição é majoritário no Ceará, com 97,2% dos municípios já
tendo reeleito pelo menos um prefeito
Em Juazeiro do Norte, há quem
fale de uma profecia de Padre Cícero para justificar o fato de a cidade jamais
ter reeleito um prefeito. A cada eleição municipal, quem está no comando da
Prefeitura tenta quebrar a 'tradição', mas sem sucesso. A cidade do Cariri
cearense, contudo, não é a única sem registros de reeleição para a
prefeitura.
No Ceará, cinco municípios
nunca reelegeram um chefe do Executivo. Além de Juazeiro do Norte, as cidades
de Baturité, Maranguape, Santana do Acaraú e São Luís do Curu possuem esse
histórico. A informação é de levantamento do Diário do Nordeste a
partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
A reeleição é permitida no
Brasil desde 1997, quando uma Proposta de Emenda à Constituição foi aprovada
pelo Congresso Nacional. Antes disso, só era possível permanecer no cargo por
um mandato. Desde então, seis eleições municipais foram realizadas com a
possibilidade dos gestores municipais concorrerem à reeleição. Em 97,2% dos
municípios cearenses, os prefeitos conseguiram permanecer oito anos
consecutivos no comando da prefeitura.
Apesar disso, em algumas
dessas cidades, a reeleição não é tão fácil: 27 delas só reelegeram o prefeito
uma vez ao longo desses mais de 25 anos.
O
QUE PODE EXPLICAR O FENÔMENO?
A
cientista política Mariana Dionísio pontua que existe no Brasil "uma forte
tendência" à reeleição. Algo que não é exclusividade das disputas
municipais — afinal, governadores e presidente também podem ser eleitos para o
segundo mandato consecutivo.
Professora
de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Torres
pontua que aqueles que são candidatos à reeleição partem "de outro
nível". "Existe um capital político conquistado no cargo, além da
possibilidade de uso das realizações durante a gestão, o que coloca o prefeito
"em um cenário favorável em relação aos demais concorrentes".
Torres
elenca hipóteses pelas quais os municípios de Juazeiro do Norte, Baturité,
Maranguape, Santana do Acaraú e São Luís do Curu não seguem essa
tendência.
"Por
exemplo, não há uma única elite política consolidada. É possível haver elites,
elites no plural, grupos políticos no plural, que conseguem se alternar. E isso
acaba pluralizando, diversificando muito mais a competição eleitoral e
favorecendo a alternância no poder. Diferente de outros lugares, a gente vê
elites políticas que conseguem se concentrar e vão minando e vão engolindo, em
alguma medida, a oposição e isso acaba favorecendo a permanência do mesmo grupo
no poder", pontua.
Dionísio
cita que os eleitores tendem a "seguir a mesma legenda do último pleito na
hora de votar, sobretudo se essa legenda tiver nomes conhecidos e
aprovados". Mas existem variáveis que podem modificar essa tendência,
"como a estabilidade de nomes no cenário eleitoral local e a visibilidade
sobre os interesses prioritários dos eleitores".
Ela
também lista algumas razões prováveis para que os municípios citados sejam uma
exceção à 'regra' da reeleição.
"A
combinação perfeita entre a cultura política local, que projeta novo fôlego de
seus candidatos a cada eleição, e uma possível baixa capacidade para a reunião
de recursos da máquina pública. Somado a isso, a tradicional falta de coesão
entre governadores e candidatos à prefeitura desses municípios nos processos
eleitorais recentes torna ainda mais complexa a ideia de continuidade",
argumenta.
ELEITOS
MAIS DE UMA VEZ
Não
ter sucesso na reeleição não significa que políticos não tenham conseguido
comandar a prefeitura mais de uma vez. Em Baturité, Juazeiro do Norte e
Maranguape, por exemplo, o mesmo político foi eleito mais de uma vez para o
cargo de prefeito.
Em
Juazeiro, o já citado Padre Cícero ficou à frente da cidade — fundada por ele —
em duas ocasiões. A primeira delas entre 1911 e 1912, logo que o povoado foi
elevado à cidade. Em 1913, foi deposto pelo governador do Ceará na época,
Franco Rabelo.
Ele
retorna ao cargo em 1914 e fica até 1926 — sendo o prefeito que passou mais
tempo no posto, na história de Juazeiro do Norte.
Em
um período mais recente, Raimundo Antônio Macedo, o Raimundão, também esteve na
cadeira de prefeito de Juazeiro do Norte mais de uma vez. Ele foi eleito em
duas ocasiões: 2004 e 2012. Ele foi candidato à reeleição apenas uma vez, em
2016. Na época, perdeu para Arnon Bezerra.
Fonte: Diário do Nordeste

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