O que era para ser a solução para a seca e o aumento da produção rural acabou se transformando em prejuízo e incerteza para o agricultor Sidrônio Moreira, de 63 anos, morador da zona rural de Tabuleiro do Norte, no Ceará. Após investir na perfuração de dois poços artesianos em sua propriedade, ele não encontrou água, mas sim uma substância escura, com odor semelhante a óleo ou asfalto.
A situação deixou a família endividada e sem condições de manter a produção agrícola. Atualmente, Sidrônio acumula uma dívida de R$ 25 mil em empréstimos e enfrenta um prejuízo mensal superior a R$ 2 mil.
Sonho interrompido
A perfuração dos poços aconteceu em novembro de 2024, com o objetivo de viabilizar a irrigação do Sítio Santo Estevão, localizado a cerca de 35 km do centro do município. A intenção era ampliar a produção de culturas como milho, feijão e sorgo, além de fortalecer a criação de animais.
Para isso, o agricultor contraiu um empréstimo de R$ 15 mil. Sua esposa, Maria Luciene, também tomou R$ 10 mil emprestados para investir no rebanho.
No entanto, ao invés de água, o que emergiu do solo foi um líquido escuro e de natureza desconhecida, inviabilizando o uso da área. Desde então, a família suspendeu as atividades agrícolas.
“A renda bruta da propriedade por mês era de R$ 2.069. Agora, vivemos apenas com a aposentadoria de R$ 1.621”, relatou o filho, Sidnei Moreira.
Investigação da ANP
Diante da descoberta, a família buscou orientação técnica junto ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), que notificou a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em julho de 2025.
A ANP realizou uma vistoria no local em março de 2026 e abriu um processo administrativo para investigar o caso. Amostras da substância foram coletadas e estão em análise.
Segundo o órgão, o material passará por testes para identificar sua composição. Caso haja indícios de hidrocarbonetos, serão realizados exames mais aprofundados, como cromatografia, para comparar com perfis de petróleo, combustíveis ou óleos lubrificantes.
A ANP orientou a família a não ter contato com o material e a evitar novas perfurações, devido ao risco potencial à saúde e ao meio ambiente.
Impactos e incertezas
Especialistas apontam que, mesmo que seja confirmada a presença de petróleo, a exploração dificilmente seria viável economicamente na região.
Segundo o professor de Economia Rural da Universidade Federal do Ceará (UFC), Vitor Hugo Miro, a ausência de água compromete diretamente a produtividade da propriedade.
“No semiárido, a água é o principal fator produtivo. Sem ela, as atividades ficam extremamente limitadas”, explicou.
Ele destaca ainda que o investimento realizado pelo agricultor tende a se tornar um custo irrecuperável, agravando a situação financeira da família.
Alternativas limitadas
Com a paralisação da produção, Sidrônio passou a depender parcialmente da água fornecida por uma adutora da região, que é insuficiente para retomar as atividades agrícolas.
Além disso, o custo da água tratada também preocupa.
“Só dá para alimentar os animais. E ainda tem que pagar. Como é que eu vou pagar com essa dívida?”, questiona o agricultor.
Especialistas sugerem alternativas como o cultivo de espécies mais resistentes à seca, como sorgo e palma forrageira, e a criação de caprinos. No entanto, essas opções apresentam menor retorno financeiro.
Esperança diante das dificuldades
Sem previsão para a conclusão das análises da ANP e sem solução imediata para retomar a produção, o agricultor mantém a esperança de encontrar uma saída.
“Vamos continuar procurando água. Não é possível que eu não consiga. Quem espera em Deus não cansa”, afirmou.
Enquanto isso, a família segue enfrentando as consequências de um investimento que, ao invés de trazer desenvolvimento, resultou em incertezas e dificuldades financeiras.
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