A Justiça Militar do Ceará condenou cinco policiais militares a penas que somam 157 anos e cinco meses de prisão por envolvimento em um esquema de extorsões contra traficantes, agiotas, comerciantes e empresários. As decisões foram proferidas na última semana e são desdobramentos da Operação Gênesis, conduzida pelo Ministério Público do Ceará (MPCE).
De acordo com as investigações, os agentes utilizavam a estrutura da própria corporação — como viaturas, armas e fardas — para abordar vítimas sob o pretexto de ações policiais. Durante as abordagens, exigiam pagamentos em dinheiro para evitar prisões ou outras medidas legais.
As condenações resultam de duas ações penais militares distintas. No primeiro núcleo, com nove réus, três foram condenados em sentença proferida no dia 26 de março. Já no segundo grupo, que contava com sete denunciados, dois foram condenados em decisão do dia 24 de março.
Todos os policiais condenados deverão iniciar o cumprimento da pena em regime fechado, embora possam recorrer em liberdade. Além das penas de prisão, foi determinada a perda da graduação de praças.
Penas aplicadas
Os cinco policiais militares condenados e suas respectivas penas são:
- Auricélio da Silva Araripe: 18 anos e seis meses de prisão
- Paulo Rogério Bezerra do Nascimento: 70 anos de prisão
- Ronaldo Gomes Silva: 25 anos e seis meses de prisão
- Alexandre Gonçalves Moreira: 19 anos de prisão
- Rafael Ferreira Lima, conhecido como “Alemão”: 24 anos e cinco meses de prisão
Dois dos condenados — Paulo Rogério Bezerra do Nascimento e Auricélio da Silva Araripe — já haviam sido sentenciados anteriormente, em dezembro de 2024, junto a outros 15 policiais militares, por crimes como associação para o tráfico, comércio ilegal de armas, corrupção ativa e passiva, extorsão, organização criminosa, peculato, receptação, roubo e tráfico de drogas.
Já o policial Ronaldo Gomes Silva, que agora foi condenado, havia sido absolvido em outro processo ligado à mesma operação.
Esquema de extorsão e atuação do grupo
As investigações conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco), com apoio da Coordenadoria de Inteligência (Coin) da Secretaria da Segurança Pública, apontaram a existência de uma rede estruturada de extorsões, com atuação entre os anos de 2016 e 2017.
Segundo o MPCE, o sargento Paulo Rogério Bezerra do Nascimento era um dos principais líderes do grupo criminoso. Ele seria responsável por selecionar as vítimas, orientar as ações e coordenar a divisão dos valores obtidos ilegalmente.
De acordo com a denúncia, o grupo utilizava informações repassadas por traficantes e “olheiros” para identificar alvos. A linguagem e a dinâmica das operações simulavam ações policiais legítimas, incluindo a escolha de viaturas e estratégias de abordagem.
Os valores exigidos variavam conforme o perfil da vítima, podendo ir de R$ 10 mil a R$ 500 mil, pagos à vista ou de forma parcelada.
Um dos casos mais graves relatados na investigação envolve a extorsão de R$ 500 mil de um traficante nas imediações da Câmara Municipal de Fortaleza, no bairro Luciano Cavalcante. Segundo o processo, o soldado Rafael Ferreira Lima, o “Alemão”, teria utilizado arma de fogo e práticas de tortura para obter o dinheiro, com apoio de um policial civil.
Escolha das vítimas
O Ministério Público aponta que traficantes de drogas eram os principais alvos, especialmente aqueles de pequeno e médio porte, que já possuíam antecedentes criminais e temiam novas prisões.
Além disso, empresários, donos de mercadinhos e pessoas ligadas a atividades informais ou ilegais também eram alvo das ações. As vítimas eram escolhidas com base no potencial financeiro e na baixa probabilidade de denunciarem os crimes, já que eram ameaçadas com flagrantes forjados.
Posicionamento das defesas
As defesas dos policiais condenados informaram que irão recorrer das decisões.
O advogado de Alexandre Gonçalves Moreira afirmou que buscará a reversão da condenação com base na alegação de insuficiência de provas, sustentando que o conjunto probatório carece de consistência.
Já a defesa de Ronaldo Gomes Silva declarou que confia na revisão da sentença pelo Tribunal de Justiça, apontando supostas nulidades no processo e destacando o histórico profissional do policial.
A defesa de Paulo Rogério Bezerra do Nascimento informou que não comenta processos em andamento e que se manifestará apenas nos autos.
A Operação Gênesis segue como uma das maiores investigações sobre corrupção envolvendo agentes de segurança pública no Ceará, revelando a atuação de grupos organizados dentro das corporações e levantando debates sobre controle e fiscalização das forças policiais no estado.
Com informações de: Diário do Nordeste
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