Mortes por intervenção policial no Ceará atingem maior número dos últimos sete anos, aponta estudo

 

Boletim da Rede de Observatórios da Segurança registra 200 mortes em ações policiais em 2025. PM afirma que atua dentro da legalidade e atribui cenário ao enfrentamento de organizações criminosas.


O Ceará registrou, em 2025, o maior número de mortes decorrentes de intervenção policial dos últimos sete anos, segundo a sétima edição do boletim "Pele Alvo", divulgado nesta quarta-feira (1º) pela Rede de Observatórios da Segurança.


O levantamento aponta que 200 pessoas morreram em ações policiais ao longo do último ano. Apenas entre janeiro e maio deste ano, já foram contabilizadas 105 mortes.


Os dados foram obtidos pela entidade por meio de pedidos realizados com base na Lei de Acesso à Informação (LAI).


Segundo o estudo, desde 2019, 1.094 pessoas morreram em decorrência de intervenções policiais no Ceará.


Perfil das vítimas

A pesquisa destaca que, entre os casos em que havia informação sobre raça, 87% das vítimas eram negras (pretas e pardas).


Outro dado apontado é que 64% dos mortos tinham entre 18 e 29 anos. Das 200 vítimas registradas no último ano, 128 estavam nessa faixa etária.


Para a socióloga e pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança, Fernanda Naiara, os números revelam um padrão preocupante.


"Estamos falando de uma violência institucional, uma violação de direito. O Estado tem um papel de garantir o nosso direito e não, na verdade, de tirar a vida. Sessenta e quatro por cento das vítimas tinham entre 18 e 29 anos. Estamos falando de uma população jovem que está sendo vítima das forças policiais", afirmou.


A pesquisadora também observa que mais da metade das vítimas não havia concluído o ensino fundamental, indicando que a violência atinge, principalmente, populações historicamente vulneráveis.


PMCE contesta interpretação dos dados

Procurada para comentar o levantamento, a Polícia Militar do Ceará (PMCE) afirmou que atua dentro dos princípios da legalidade e do uso proporcional da força.


Em nota, a corporação argumentou que comparações isoladas desconsideram a dinâmica da criminalidade e o contexto enfrentado pelas forças de segurança.


A PM destacou ainda que o Estado enfrenta organizações criminosas fortemente armadas e informou que, somente em 2025, foram apreendidas 7.221 armas de fogo, o maior número da série histórica iniciada em 2009.


Segundo a corporação, cada arma retirada de circulação representa também um potencial confronto evitado.


A instituição acrescentou que permanece comprometida com a preservação da vida, o respeito aos direitos fundamentais e a atuação técnica e responsável em suas operações.


Mudança na classificação de ocorrências

O boletim também cita um decreto assinado pelo governador Elmano de Freitas (PT) em fevereiro deste ano, que alterou a forma de classificação dos policiais em inquéritos envolvendo mortes ou lesões decorrentes de intervenção policial.


Pela nova regra, o policial passa a ser identificado como "interventor", enquanto a pessoa atingida é registrada como "opositor", até que haja conclusão das investigações.


A mudança ocorreu após uma operação policial em Monsenhor Tabosa que resultou na morte de cinco pessoas.


Para a pesquisadora Fernanda Naiara, a alteração pode reforçar a presunção de culpa das vítimas e dificultar a busca por justiça por parte das famílias.


Juazeiro do Norte aparece entre os municípios com mais casos


O levantamento identificou ocorrências em diversos municípios cearenses.


Entre as cidades com maior número de mortes por intervenção policial estão:

  • Fortaleza – 29 mortes;
  • Juazeiro do Norte – 11 mortes;
  • Canindé – 11 mortes;
  • Boa Viagem – 9 mortes;
  • Itapipoca – 7 mortes;
  • Caucaia – 7 mortes.


Outros municípios do Cariri também aparecem na relação, como Brejo Santo (2), Campos Sales (2), Barbalha (1), Crato (1), Farias Brito (1), Jardim (1) e Assaré (1).


A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) foi procurada pela reportagem para comentar os dados e informou que ainda irá se manifestar.

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