Brasil produz energia de sobra, mas falta estrutura para distribuir e armazenar

 

Foto: Reprodução / Excesso de geração, principalmente de fontes renováveis no Nordeste, aumenta cortes de energia e prejuízos para o setor

O Brasil vive um paradoxo no setor elétrico: o país tem capacidade para produzir muito mais energia do que consome, mas enfrenta dificuldades para transmitir e armazenar esse excedente. O problema é especialmente forte no Nordeste, região que concentra grande parte da geração eólica e solar do país.


Quando a rede não consegue transportar toda a energia produzida, usinas renováveis precisam reduzir ou interromper a geração. O fenômeno é conhecido como curtailment e provoca prejuízos para os empreendimentos.


Segundo especialistas, o problema não está na falta de energia, mas na infraestrutura disponível para fazer com que ela chegue aos locais onde é necessária.


“Quando a rede não consegue fazer esse escoamento na mesma proporção, parte dessa energia não pode ser aproveitada”, explica Jaque Paes, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).




Produção supera o consumo

A matriz energética brasileira possui atualmente cerca de 256 GW de capacidade instalada, enquanto o consumo médio previsto para 2026 é de aproximadamente 85 GW, segundo dados do Operador Nacional do Sistema (ONS).


A demanda deve crescer 4,1% neste ano e chegar a 101 GW médios em 2030.


Enquanto isso, a capacidade de geração deve alcançar 269 GW até 2030, incluindo aproximadamente 60 GW de usinas eólicas e solares centralizadas.


O Sudeste concentra mais da metade do consumo nacional, enquanto o Nordeste se destaca pela produção de energia renovável.




Nordeste enfrenta impacto do excesso de geração

A expansão acelerada das usinas eólicas e solares aumentou a oferta de energia no Nordeste, mas a infraestrutura de transmissão não avançou na mesma velocidade.


Com isso, em determinados momentos, existe energia disponível na região, mas não há capacidade suficiente para transportá-la para os grandes centros consumidores.


Outro problema ocorre no início da noite, quando o consumo aumenta e a geração solar diminui. Nesses períodos, o sistema precisa recorrer com maior frequência às termelétricas.


O acionamento dessas usinas pode aumentar os custos do sistema e contribuir para a elevação da conta de energia.


Transmissão precisa acompanhar expansão

Especialistas apontam que a construção de novas linhas de transmissão e subestações é fundamental para reduzir o desperdício.


O ONS identificou a necessidade de aproximadamente 5,3 mil quilômetros de novas linhas de transmissão até 2030.


O Plano Decenal de Expansão até 2035 prevê cerca de R$ 120 bilhões em investimentos na infraestrutura de transmissão.


“O desafio deixou de ser apenas produzir energia. É conseguir aproveitá-la”, afirma Jaque Paes.


Baterias podem ser uma das soluções

Além da expansão da transmissão, o armazenamento de energia é apontado como uma alternativa para aproveitar o excedente produzido durante o dia.


A ideia é armazenar a energia gerada principalmente pelas usinas solares e disponibilizá-la à noite, quando a demanda aumenta e a produção solar cai.


O Brasil terá seu primeiro leilão para contratação de sistemas de armazenamento em baterias em dezembro, com expectativa de que os empreendimentos comecem a operar em 2028, priorizando estados do Nordeste.


Segundo projeção da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), a contratação de 2 GW de capacidade em baterias poderia representar uma economia de aproximadamente R$ 3,2 bilhões por ano em encargos.


O desafio agora é transformar a abundância de energia renovável em uma vantagem efetiva para o sistema e para o consumidor, reduzindo desperdícios e evitando que a falta de infraestrutura continue limitando o potencial energético brasileiro.

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