Às margens da BR-470, uma das principais rodovias da Região Sul, e a poucos quilômetros do centro de Carlos Barbosa, cidadezinha de 29.000 habitantes na serra gaúcha, a sede da multinacional de itens para casa Tramontina pode muito bem passar despercebida ao viajante mais apressado. Espalhados por 300.000 metros quadrados, os prédios formados por enormes blocos pré-moldados pintados de um cinza discreto dizem pouco sobre a atividade da Tramontina.
A sobriedade da fábrica tampouco dá alguma pista sobre o desempenho espetacular de um negócio fundado há 110 anos, pelas mãos do imigrante italiano Valentin Tramontina, para produzir facas a ser utilizadas na lida das propriedades rurais tocadas por outros imigrantes na serra gaúcha. Em 2021, a empresa vai faturar 10 bilhões de reais, 50% acima do registrado há apenas dois anos. Em meio à pandemia, e à falta generalizada de peças em cadeias produtivas globais, um percalço capaz de paralisar indústrias inteiras, como a automotiva, o trabalho nas dez fábricas da Tramontina segue o padrão de três turnos. Em 2020, a empresa ampliou a mão de obra em 10%, com a chegada de algo como 1.000 funcionários.
“Para o futuro, eu acho que a Tramontina tem de continuar entregando o que promete”, diz Clovis Tramontina, integrante da terceira geração da família fundadora da empresa e presidente desde 1991. Num Brasil afetado por incertezas crescentes na economia, e por um desempenho em ritmo “devagar quase parando” da indústria, a história da Tramontina serve como uma lição poderosa de como o capitalismo brasileiro pode superar os desafios e disputar de igual para igual com concorrentes internacionais.
O bom momento da Tramontina
é, em grande medida, resultado da chacoalhada causada pela pandemia. O
isolamento social trancou bilhões de pessoas dentro de casa mundo afora. Muitas
delas, em particular as de classe média e alta, deslocaram recursos até então
empregados em itens da vida social, como alimentação em restaurantes ou
ingressos para shows e cinemas, para compras dedicadas a tornar o ambiente
doméstico mais confortável durante a quarentena. Nessa toada, as vendas de
artigos para cozinha como facas, panelas e baixelas dispararam.
Na esteira do alvoroço dos
brasileiros em aprender a cozinhar ou aperfeiçoar dotes culinários, os gastos
com utensílios domésticos e de decoração superaram 87 bilhões de reais em 2020,
segundo a ABCasa, associação do setor. É uma alta de 5% na comparação com 2019
e um desempenho bem diferente do resto da economia — o PIB brasileiro caiu 4% no
mesmo período.
“O isolamento social fez as
pessoas adaptarem suas casas para recebê-las 24 horas por dia”, diz Eduardo
Turqueto, presidente da ABCasa. Concorrentes da Tramontina também ganharam com
a pandemia. Na Brinox, sediada em Caxias do Sul, a 40 quilômetros de Carlos
Barbosa, o faturamento cresceu 24% em 2020, para 400 milhões de reais.
No grupo francês SEB, um
gigante com vendas de 6,9 bilhões de euros e dono das marcas Arno e Panex no
Brasil, depois de uma queda de 5% nas receitas em 2020 o faturamento em 12
meses cresceu 18% neste ano. Ao que tudo indica, o apetite deve seguir em alta.
Nas contas da consultoria Euromonitor, as vendas de apetrechos culinários
crescerão a taxas de dois dígitos até 2025 — 11% no caso de talheres, 24% em
jogos de panela e 21% nos demais objetos de cozinha.
A pandemia pegou a Tramontina com a cozinha arrumada e com as finanças em ordem. Conhecer a fundo os números da empresa é um desafio pelo fato de ela ser de capital fechado e, seguindo uma tradição de companhias fundadas por imigrantes italianos na serra gaúcha, ainda manter 100% do controle societário nas mãos de descendentes das famílias Tramontina e Scomazzon, que entrou na sociedade em 1949 (veja linha do tempo abaixo). Alguns indícios, no entanto, revelam uma situação bastante sadia das contas da empresa. De 2017 para cá, a proporção entre endividamento e receita caiu em praticamente todas as nove unidades de negócios da Tramontina.
Fonte: Revista EXAME
Fonte:
Revista EXAME
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