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| Foto Reprodução |
A prisão de mais um prefeito
no Ceará por suposto envolvimento com facções expõe como as organizações
criminosas têm agido para ameaçar ou retaliar opositores políticos. Luan Dantas
(PP), de Potiretama, foi preso preventivamente na última quinta-feira (3), sob
suspeita de ter encomendado com um membro do Primeiro Comando da Capital (PCC)
um incêndio criminoso contra a propriedade de um desafeto.
Dantas suspeitava que a vítima
seria autora de uma denúncia de irregularidade na aquisição de combustíveis
pela Prefeitura de Potiretama ao Ministério Público, o que teria causado a sua
reação, segundo as investigações.
O cunhado do prefeito, Thiago
José Sousa Araújo, que teria ajudado no crime, também foi alvo de mandado de
prisão. Ambos, aliados ao já falecido Felipe Gomes da Silva, o “Pajé”, membro
do PCC, teriam coordenado e executado o incêndio na fazenda do seu opositor,
localizada em Alto Santo, a 30 km de Potiretama.
A Polícia Civil também
detectou o uso de um telefone celular específico para camuflar as comunicações
sobre os crimes. “Luan Dantas e Thiago Araújo utilizam aparelhos telefônicos
específicos, os quais são mantidos escondidos com terceiros, a fim de se comunicarem
entre si e com membros das facções sobre os crimes praticados”, mostra decisão
da Comarca de 3º Núcleo Custódia/Garantias-Quixadá sobre o cumprimento dos
mandados.
À reportagem, a defesa do
prefeito, representada pelo advogado Pedro Neto, nega que o cliente fora detido
por envolvimento com crime organizado, mas afirma que foi, na verdade, por
delito de incêndio criminoso. A defesa detalha que não teve acesso à íntegra do
procedimento.
"Os fundamentos da prisão
são fruto de denúncias, sem lastro probatório algum, formuladas por opositores
políticos. Sua inocência não será maculada por essa perseguição política",
argumenta o advogado.
O uso da força de facções para
fins políticos é investigado em ao menos outros dois municípios no Ceará. Há
suspeitas de que o resultado das eleições em Canindé e em Santa Quitéria tenha
sido diretamente influenciado pela atuação de grupos criminosos. Entenda a
seguir.
Santa Quitéria
A suposta participação do
Comando Vermelho (CV) nas eleições de Santa Quitéria, da qual o então prefeito,
Braguinha (PSB), saiu novamente vitorioso, resultou no afastamento do gestor e
quase três meses de prisão. Inicialmente, a preventiva foi convertida em prisão
domiciliar. Contudo, em 19 de março, o Tribunal Regional Eleitoral do Ceará
(TRE-CE) o liberou do recolhimento.
A defesa do político
apresentou relatório médico nos autos indicando ser necessário tratamento. O
desembargador eleitoral Luciano Maia, então, entendeu que havia
incompatibilidade “de plena efetivação no domicílio do paciente, de modo a
resguardar a sua saúde e evitar o indesejável agravamento das
doenças".
Nessa terça-feira (18),
Braguinha virou réu após o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE) aceitar a denúncia do Ministério Público, que o acusa de
ser apoiado pela facção no pleito do ano passado. Além dele, outras sete
pessoas também vão responder à ação penal instaurada.
A Justiça Eleitoral decidiu,
ainda, ratificar a decisão da presidência do TRE que determinou o afastamento
de Braguinha e do vice-prefeito de Santa Quitéria, Gardel Padeiro (PP). Com
isso, ele segue distante do cargo de prefeito, hoje ocupado pelo seu filho,
Joel Barroso (PSB). Por ter sido eleito presidente da Câmara Municipal para o
terceiro mandato consecutivo, ele entrou na linha de sucessão da Prefeitura em
caso de vacância. Com a atuação da Polícia Federal e da Polícia Civil, o vice
também havia sido impedido de tomar posse em 1º de janeiro.
Àquela altura, o Ministério
Público Eleitoral (MPE) já havia pedido a cassação de Braguinha, de uma
candidata a vereadora da cidade e dois servidores da Prefeitura. O órgão levou
à Justiça Eleitoral supostas ameaças sofridas pelos adversários do prefeito,
inclusive com proibição a eventos de campanha por criminosos.
A denúncia também citava
suposto envio de carro ao Rio de Janeiro e entrega do veículo a pessoas ligadas
ao Comando Vermelho. Segundo o MPE, as ameaças eram públicas, com muros
pichados com mensagens contra o então candidato Tomás Figueiredo e apoiadores.
Frases como "Fora Tomas" e "Quem apoiar o Tomas vai entrar na
bala", entre outros, foram registradas nas paredes da cidade.
Além disso, pessoas que
demonstravam apoio ao candidato também relataram receber mensagens e ligações
com ameaças, segundo a ação.
Também foi registrado, em
setembro, ameaças a servidores do cartório eleitoral. "O Cartório
Eleitoral recebeu ligação de um integrante do Comando Vermelho, que se dirigiu
a um dos servidores ameaçando atacar a unidade do órgão e matar todos, caso a Justiça
não 'parasse' com as decisões contra os 'manos' do CV", detalha a ação do
MPE.
A Polícia Federal instaurou
investigação para apurar a atuação da facção na campanha de Santa Quitéria e
identificou um dos autores das ameaças: Daniel Claudino de Sousa, vulgo
'DA30'.
"(Ele) é integrante do
Comando Vermelho, reside no Rio de Janeiro-RJ, mas veio para Santa Quitéria/CE,
a mando das lideranças do Comando Vermelho, para praticar as coações eleitorais
e diversos outros crimes comuns em Santa Quitéria e municípios vizinhos",
relata o texto. A ação descreve ainda crimes cometidos por ele em Varjota,
município vizinho a Santa Quitéria.
A defesa do prefeito afastado
garantiu que o cliente "não teve ciência, benefício ou qualquer
participação em atos ligados a facções criminosas durante sua campanha para as
eleições de Santa Quitéria".
"Com fé em Deus e na
Justiça, ele utilizará a liberdade que lhe foi conferida para provar, dentro
dos meios legais, a sua inocência", finalizou o comunicado.
Canindé
Em Canindé, também chegaram ao
MPE queixas sobre ameaças e coação de eleitores com a participação de uma
facção criminosa, a Guardiões do Estado (GDE). O beneficiário dessas práticas
seria o atual prefeito Jardel Sousa (PSB), conforme os relatos.
As investigações identificaram
a remetente: uma mulher que chefiava o comitê eleitoral do então candidato, que
é uma traficante de drogas que atua na região.
“Além disso, também foi amplamente divulgado dentro do distrito fotos com o
número do referido candidato e a frase ‘sou GDE 7.4.5 e voto 40’, em alusão à
facção criminosa GDE”, mostra um documento anexado ao inquérito que está em
curso no Supremo Tribunal Federal (STF).
No mesmo documento, a PM
informa que a mulher é ligada a Bebeto do Choró, de quem, inclusive, ganhou um
carro por convencer parentes da família a votar no Professor Jardel.
Além disso, é investigada a
prática de compra de votos no município pela eleição do candidato do PSB com
dinheiro de emendas parlamentares, em suposto esquema que envolveria também o
prefeito eleito de Choró, Bebeto Queiroz (PSB), atualmente foragido, e o
deputado federal Junior Mano (PSB).
O MPE também pediu a cassação
de Jardel e do vice-prefeito, Ilomar Vasconcelos (PSB), pelo suposto esquema de
compra de votos. O PontoPoder buscou a Prefeitura para
pronunciamentos sobre a investigação em curso. Quando houver resposta, a
matéria será atualizada.
Já a defesa de Júnior Mano já
havia afirmado que a inocência do político será provada ao longo do processo.
Em nota, também se colocou “à disposição das autoridades policiais e judiciais
para o completo esclarecimento dos fatos”.
O deputado ainda ressaltou que
a execução das emendas é de responsabilidade dos gestores locais e que não tem
"qualquer participação em processos licitatórios, ordenação de despesas ou
fiscalização de contratos administrativos".
"A atuação se dá
exclusivamente na esfera legislativa, sem qualquer envolvimento nas
administrações municipais. Nas eleições de 2024, o deputado apenas manifestou
apoio a alguns candidatos", disse a nota.
Já a defesa de Bebeto Queiroz
não foi localizada pela reportagem.
Fonte Di´rio do Nordeste

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