Foto: Clarisse Nascimento
Referência de devoção à Virgem
Maria no Ceará, a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Fortaleza, celebra 70
anos de inauguração em outubro deste ano. Fundada em 1955, o Santuário se
enche a cada dia 13 do mês, especialmente em maio e outubro, por fiéis que
creem na intercessão e na dedicação de Maria.
Ao longo de 7 décadas, o lugar
se tornou um marco religioso na capital cearense e uma referência
cultural, patrimonial e até mesmo turística – já que recebe visitantes de
outras cidades, estados ou países. É um símbolo territorial em uma das
principais avenidas de Fortaleza, a Av. Treze de Maio.
O pároco da igreja é o padre
Ivan de Souza, que chegou na comunidade em fevereiro de 2008 vindo da Diocese
do Crato. Ao Diário do Nordeste, ele conta que o Santuário de
Fortaleza é o segundo em número de fiéis, perdendo apenas para Fátima, em
Portugal.
“No dia 13 de maio, nós temos
uma população de 300 mil fiéis que acompanham a procissão. Em
outubro, são 80 mil a 100 mil fiéis na caminhada”, afirma. Esse número
compreende tanto moradores de Fortaleza quanto católicos vindos do interior e
de outros estados do Brasil.
Para a Igreja Católica, um
Santuário é uma igreja frequentada por fiéis vindos de outras regiões atraídos
por alguma imagem, relíquia ou culto que existe especificamente naquele local.
A Igreja de Fátima é popularmente conhecida como Santuário, mas esse título foi
dado pelos fiéis.
Esse sentimento é reforçado
pelos católicos que assistem às celebrações no espaço. “Toda missa que a gente
participa aqui, a gente se emociona, a gente percebe o quanto Nossa Senhora de
Fátima tem uma energia muito positiva. Não tem como a gente não se
emocionar quando entra aqui na Igreja de Fátima”, afirma o professor Paulo
Araripe, fiel que estava em uma das missas que a reportagem visitou.
Além da relevância religiosa,
o local é um símbolo da cidade, como explica Tiago Vieira Cavalcante, professor
do departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC).
"Igrejas como a de Fátima exercem uma centralidade na cidade. São lugares
não somente de passagem, mas também de encontro. São marcos geográficos devido
à sua imponência, mas também à sua importância histórica”, diz.
“O santuário tá dentro do
coração do povo, na cabeça do povo. A Igreja não impôs essa condição, mas é a
própria comunidade que fala. E aqui tem tudo para ser santuário por conta do
número de celebrações, atendimento de confissões, de escuta”
Padre Ivan de Souza.
Pároco da Igreja de Fátima há
17 anos
Quando surgiu a Igreja de
Fátima
A história de uma das igrejas
mais conhecidas de Fortaleza começa em 9 de outubro de 1952, quando a imagem
peregrina de Nossa Senhora de Fátima chega à cidade diretamente de Portugal.
A figura já havia percorrido diversos países com objetivo de espalhar a
mensagem de oração e penitência revelada por Nossa Senhora aos três
pastorinhos, em 1917.
A figura foi recebida com
grande alegria: as ruas da cidade ornamentadas com faixas e milhares de
bandeirinhas nas vias, como registra o pesquisador Eduardo Fontes no livro “As
pouco lembradas igrejas de Fortaleza”. As visitas da imagem peregrina se iniciaram
na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, na Prainha, seguindo pela Igreja Matriz dos Remédios, no Benfica, e depois para a
Igreja de Nossa Senhora da Salete, no Montese.
Uma solenidade de bençãos aos
doentes foi realizada na Praça José de Alencar e, ao final do evento, a imagem
caiu e se quebrou. A peregrinação foi encerrada e a figura retornou a Portugal,
com a promessa de que retornaria à Fortaleza no ano seguinte.
Sob a influência dessa visita, surge a ideia da construção de um santuário para homenagear Nossa Senhora de Fátima em Fortaleza. O novo templo foi organizado pela comissão formada pelo prefeito de Fortaleza Paulo Cabral de Araújo, dos monsenhores José Mourão Pinheiro e André Viana Camurça, de João Jacques Ferreira Lopes e do médico Aníbal Santos.
O terreno de 100m² onde foi
construída a igreja foi doado pelo coronel Pergentino Ferreira e a esposa
Albertina. Quem relembra a história é a neta do casal, Álida Ferreira, de 81
anos. Os avós eram proprietários do Sítio Canadá, localidade que deu origem ao
bairro Redenção e, posteriormente, ao ‘de Fátima’.
“Meus avós moravam aqui perto
e eu morava no Benfica. A gente vinha para o sítio deles. Minha família toda
participou da construção da igreja”, recorda. Ela frequenta a Igreja
semanalmente e fala do significado do local para a família. "Essa igreja representa
muita coisa, a devoção que nós temos, que meus avôs nos passaram",
conclui.
Um grupo de senhoras chamadas
de Operárias de Fátima passou a visitar casas, comércios e indústrias da cidade
para levantar recursos para a construção da igreja. Foram arrecadados mais de 1
milhão e trezentos mil cruzeiros. O projeto e a execução da obra foram
entregues ao engenheiro Luciano Ribeiro Pamplona.
A construção do santuário se
estendeu durante os anos de 1954 e 1955, e foi elevado à condição de paróquia
no dia 14 de setembro de 1955 pelo decreto n.º 105 do Arcebispo Metropolitano
de Fortaleza.
Com o valor, uma missa campal
em 28 de dezembro de 1952 lançou a pedra fundamental do novo templo consagrado
a Nossa Senhora de Fátima. No ano seguinte, a imagem peregrina volta a
Fortaleza e fica exposta no Santuário em construção, com uma série de atividades
durante os dias 14, 15, 16 de dezembro de 1953.
O decreto só entrou em vigor
no dia 13 de outubro de 1955, quando o padre Gerardo de Andrade Ponte tomou
posse como pároco da Igreja. Ele permaneceu por vinte anos no cargo, sendo um
dos fundadores do Colégio São Tomás de Aquino.
Em 1956, uma lei municipal
oficializa a troca do nome do Bairro Redenção para Bairro de Fátima, pela
influência do Santuário.
Em maio de 2024, a imagem
peregrina vinda de Portugal voltou ao Ceará. Foram realizadas uma série de
atividades, com missas, momento de adoração, show de louvor e celebrações
eucarísticas. Além de Fortaleza, a figura passou pelas dioceses de Crato, Sobral
e Tianguá.
Promessa à vida da neta
A Igreja Católica entende
Maria, mãe de Jesus, como uma figura humana que grande importância no
cristianismo. É ela que intercede pelos fiéis junto a Deus no céu. Por isso,
muitos católicos rezam e fazem pedidos à Virgem Maria com a intenção de serem
atendidos.
Foi por um pedido à Nossa
Senhora de Fátima que a neta de Noélia Aguiar, de 85 anos, sobreviveu há mais
de 30 anos. Quando nasceu, a pequena Marina contraiu uma infecção generalizada
devido à perda de líquido amniótico durante a gravidez. Mesmo com a incerteza
dos médicos, Noélia recorreu àquela que advoga pelos devotos.
Hoje, a neta tem 36 anos e é
médica onco pediatra no Hospital Infantil Albert Sabin, um ‘milagre’ para
Noélia. "Eu digo a ela, você tá cuidado das crianças porque Deus a salvou
com essa missão", afirma. Por essa promessa, Noélia leva um buquê de
flores para a igreja nas celebrações do dia 13.
“Eu disse assim: 'minha
mãezinha, peça aí a Jesus pela saúde da minha netinha, que ela fique boa'. Fiz
uma oração tão forte, era por volta de meia-noite. Eu senti Nossa Senhora com
ela nos braços. Eu perguntei ao meu filho e ele disse que foi a hora que ela
começou a melhorar"
Noélia Aguiar
devota de Nossa Senhora
Ela frequenta o espaço
religioso desde o início da construção. Nascida em Camocim, veio ainda jovem
para Fortaleza e escolheu o Santuário para se casar, há 64 anos. "Eu já
disse que é daqui para Camocim, no jazigo da minha família", diz.
A crença e convicção por Nossa Senhora também faz parte da história de Maria do Rosário Alves, que participa da Paróquia de Fátima há 32 anos. Natural do Piauí, ela veio para Fortaleza ainda jovem e solteira após perder o emprego e o noivado de cinco anos.
“Eu fiquei para baixo, na lama
mesmo, até que uma colega minha me falou que aqui era muito bom para fazer
oração. Eu vim num dia 13 de maio e fiz um pedido a Nossa Senhora que queria
ter tudo de volta”, relata.
Em setembro, ela começou a
frequentar a igreja e participar das novenas para a Virgem Maria, e, no mês
seguinte, encontrou aquele que se tornaria seu esposo. O rápido namoro logo se
tornou casamento e Maria do Rosário conquistou uma nova vida. Em 2021, o marido
faleceu no dia 13 de abril após passar cinco anos e meio doente.
“Eu não vim para cá atrás de
um homem, vim atrás de minhas melhoras, mas Deus me mostrou [ele]. Eu me casei,
faz parte da nossa vida e fui muito feliz com isso”, comenta Maria.
“A gente sabe que Nossa
Senhora não salva, ela não cura, mas intercede e acho que ela colocou [meu
pedido] na mão do filho. Foi seu filho que me deu tudo na minha mão, quando eu
estava precisando. O que Deus tinha para me dar estava aqui”, afirma.
Essas histórias são alguns
exemplos que retrataram a fé e devoção de quem frequenta a Igreja de Fátima,
como afirma padre Ivan. “São muitas histórias e a gente fica assim
impressionado com a questão das curas. Quantas curas, sabe? Tem essa questão da
gravidez de mulheres que não conseguiam engravidar. Depois, quanto a questão do
trabalho, do profissional. Muitos que estão desempregados, que chegam às vezes
aqui, sofridos, desesperados, mas se colocam ali”, diz.
Patrimônio de Fortaleza
Segundo Thiago Vieira, a
Igreja de Fátima pode ser considerada um patrimônio da cidade diante da
dinâmica geográfica e afetiva que possui. “Muitos ali se casaram, muitos a
frequentam e muitos organizam o seu dia de acordo com os acontecimentos que se
dão ali”, explica.
Os meses mais movimentados são
os de maio — dia em que se festeja Nossa Senhora de Fátima — e de outubro,
quando ocorreu o milagre do sol, considerada a última aparição da Virgem Maria
aos pastorinhos. Segundo Padre Ivan, a cada dia 13 são realizadas 11 missas, de
5 horas até as 20 horas.
Nesse período, a Igreja de
Fátima fica movimentada de fiéis e peregrinos de muitas partes do Estado e do
Brasil, influenciando a economia de Fortaleza. Comerciantes e feirantes montam
barracas na Praça Pio IX para a venda de artigos religiosos.
“Eu até gosto de brincar
dizendo assim: só não reza quem não quiser, porque tem reza demais nesse dia.
Há horários para todas as pessoas participarem da Santa missa no dia 13, porque
a cidade de Fortaleza é muito tocada pelo dia 13”
Segundo padre Ivan, o dia 13 é
uma data de “muita oração e rezas”. Aidee Bonfim é orientadora da leitura
orante da Bíblia no igreja e, segundo ela, a organização do espaço e dos
funcionários é voltado para os festejos marianos. “Dia 13 aqui é simplesmente
voltado para o dia 13. Os padres não fazem outra coisa, porque são 11 missas e
vem muitas pessoas de fora”, diz.
Estátua protetora
Quem passa pela Avenida 13 de
Maio também observa uma grande imagem feita em devoção à Nossa Senhora na Praça
Pio IX, logo em frente à igreja. A figura de 15 metros de altura foi inaugurada
em 13 de maio de 2008, com uma grande caminhada da Igreja do Carmo até o
Santuário.
Legenda: A
figura imponente de 15 metros de altura foi construída anos depois da Igreja,
em 2008
Foto: Foto
1: Denise Mustafa/Daniel Roman/Cedoc SVM | Foto 2: Ismael Soares | Foto 3:
Daniel Roman
Padre Ivan, responsável por
celebrar o encerramento dos festejos, relembra que foi um grande momento para a
comunidade de fiéis que frequentam a Igreja de Fátima. Cerca de 45 mil pessoas
acompanharam a procissão. Um palco montado na frente da igreja recebeu a imagem
com um show de fogos de artifício e chuva de papel picotado. Foram realizadas
10 missas ao longo do dia.
A estátua da Virgem Maria foi
idealizada pelo vereador Walter Cavalcante, que elaborou um projeto de lei para
a construção da obra. A Câmara Municipal aprovou, por unanimidade, o projeto e
a emenda que garantiu os recursos para realização da construção.
A imagem foi encomendada ao
artista plástico Francisco José Alencar Diniz, conhecido por Franciné Diniz.
Construída com ferro, brita, cimento e gesso, a figura foi coberta por material
acrílico, revestido de tinta e recoberto de esmalte sintético. Ao longo dos
anos, a imagem passou por obras de restauração, como manutenção da estrutura
interna e nova pintura.
Créditos
Clarice Nascimento
Repórter
Dahiana Araújo
Editora de DN Ceará
Karine Zaranza
Coordenadora de Jornalismo
Ívila Bessa
Gerente de Jornalismo
G.André Melo
Gerente Audiovisual
Gustavo Bortoli
Diretor de Jornalismo
Fonte: Diário do Nordeste
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