Psicóloga explica como o trauma vai além da violência física e exige escuta, cuidado e reconstrução da identidade
Quando uma mulher sobrevive a
uma tentativa de feminicídio, ela não sai ilesa. O corpo pode resistir, mas a
mente e o coração carregam feridas profundas e, muitas vezes, invisíveis. No
mês do Agosto Lilás, dedicado à conscientização pelo fim da violência contra a
mulher, é preciso lançar luz sobre as histórias de quem escapou por pouco da
morte e agora precisa reconstruir sua vida diante de traumas devastadores,
exposição pública e um sistema ainda despreparado para acolhê-la.
O feminicídio, conforme
definido pela Lei nº 13.104/2015, é o assassinato de uma mulher em razão do
gênero. Mas antes da morte, há toda uma escalada de abusos e violências. E
quando a tentativa fracassa, o que sobra são mulheres marcadas por dores psíquicas
profundas, muitas vezes silenciadas pela vergonha, pelo medo e pelo julgamento
social. “O que já era devastador no privado, agora é exposto, gerando uma nova
camada de violência: a exposição e o julgamento de um grande público ignorante
que nada entende desse tipo de trauma relacional”, afirma a psicóloga Bruna
Côrtes, especialista em psicotrauma na Norte Saúde Mental.
Bruna, que atua há mais de 15
anos no atendimento clínico e na formação de terapeutas, explica que o trauma
dessas sobreviventes é complexo e múltiplo. “Não estamos falando apenas de um
episódio traumático, mas de uma sobreposição de camadas de dor, medo, vergonha,
exposição e solidão. O corpo, a psique e a identidade da vítima ficam
atravessados não só pela violência em si, mas por múltiplos choques
relacionados ao medo real de morrer e à violação de uma intimidade que já
carrega tantas feridas”, detalha.
De acordo com o Fórum
Brasileiro de Segurança Pública, mais de 7 mil mulheres foram vítimas de
tentativa de feminicídio no Brasil somente em 2024. São mulheres que
sobrevivem, mas raramente recebem o suporte necessário para lidar com o impacto
psicológico da violência. Muitas delas desenvolvem transtornos como estresse
pós-traumático, ansiedade severa, depressão, fobias sociais e sintomas físicos
ligados à somatização.
“A verdade é que não dá para
prever o conjunto de sinais e sintomas que vão aparecer a partir de um evento
desses porque o trauma não está no evento em si, mas na resposta interna do
organismo àquela vivência”, explica Bruna. “Duas pessoas podem passar pelo
mesmo evento e reagirem de formas diferentes, dependendo da história pessoal,
dos apoios disponíveis e da resiliência”, completa.
Além do trauma psicológico,
essas mulheres enfrentam a falta de proteção continuada, dificuldades
financeiras, abandono familiar e até a revitimização institucional. A psicóloga
alerta que o tratamento especializado e humanizado é essencial para a reconstrução
dessas vidas. “O mais importante é que a vítima receba o tratamento adequado e
com profissionais especializados para que ela possa processar o que foi vivido,
restaurar o senso de segurança e voltar a pertencer ao próprio corpo e à
própria história.”
O Agosto Lilás, campanha que
marca os 18 anos da Lei Maria da Penha, reforça, neste ano, a importância do
acolhimento e da escuta qualificada. Criada para conscientizar a população
sobre os diversos tipos de violência contra a mulher, a iniciativa também
divulga canais de apoio como o Ligue 180, os Centros de Referência de
Atendimento à Mulher (CRAMs) e as Delegacias Especializadas. No entanto, como
lembra Bruna, o acolhimento não se resume a instituições: ele começa no olhar
da sociedade. “É urgente que paremos de julgar e passemos a escutar. Só assim
vamos conseguir interromper o ciclo de violência e ajudar essas mulheres a
reconstruírem suas histórias”, conclui.
Sobre Bruna Côrtes - Diretora
Técnica e Psicóloga Clínica na Norte Saúde Mental - Psicóloga clínica com mais
de 15 anos de experiência, atuando em diversas frentes, incluindo a Santa Casa
de Misericórdia, instituição referência em atendimento e promoção de saúde no
Brasil. Especialista em Psicotrauma e Terapia Sistêmica. É também professora e
supervisora de terapeutas em formação, além de palestrante e facilitadora de
vivências psicológicas coletivas. Acredita no poder transformador da
consciência e do afeto e por isso seu propósito é democratizar o
autoconhecimento e revolucionar conexões interpessoais e ambientes.
Sobre a Norte Saúde Mental: É
uma empresa com o propósito de transformar ambientes de trabalho em espaços
mais saudáveis, sustentáveis e psicologicamente seguros. Especializada em
oferecer psicoterapia de qualidade para colaboradores de empresas, com atendimentos
presenciais ou online realizados por psicólogos qualificados e supervisionados,
também possui um leque de práticas organizacionais personalizáveis para atender
a todo tipo de organização. Formada por um grupo multidisciplinar com mais de
15 anos de experiência em psicologia clínica, organizacional e desenvolvimento
de negócios, utiliza diferentes abordagens psicoterapêuticas aliadas à
metodologia de Segurança Psicológica
para empresas, com objetivo de promover autoconhecimento,
bem-estar e transformação em indivíduos e organizações. Sua proposta é dar recursos
e suporte às empresas que entendem que o investimento em saúde mental é, na
verdade, um investimento no sucesso a longo prazo. Saiba mais acessando o site
e também pelo Instagram da empresa.
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