Maior estudo do mundo detalha impactos do vírus Zika na infância no Brasil

Foto Reprodução

Pesquisadores de diferentes estados e instituições brasileiras publicaram, no fim de 2025, o maior estudo já realizado no mundo sobre os efeitos do vírus Zika na infância. A pesquisa reuniu dados de 843 crianças brasileiras com microcefalia, nascidas entre janeiro de 2015 e julho de 2018, nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país.

O trabalho foi conduzido pelo Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio), que envolve 12 centros de pesquisa nacionais, e foi publicado em 29 de dezembro no periódico científico PLOS Global Public Health.

Segundo a pesquisadora Maria Elizabeth Lopes Moreira, do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), o estudo é inédito pelo tamanho da amostra e pela análise aprofundada dos dados. “Não há estudo anterior publicado com esse número de crianças”, destacou em entrevista à Agência Brasil.

O objetivo da pesquisa foi descrever os casos, padronizar informações e definir o espectro da microcefalia associada ao vírus Zika, doença que teve sua maior incidência mundial registrada no Brasil durante a epidemia entre 2015 e 2016.

De acordo com Maria Elizabeth, um dos principais achados foi a identificação de uma morfologia específica da microcefalia causada pelo Zika, diferente de outras causas. “Na microcefalia por Zika, o cérebro se desenvolve inicialmente e depois sofre uma destruição celular, levando ao colapso do cérebro e da estrutura óssea”, explicou.

Esse quadro está associado a distúrbios neurológicos, auditivos e visuais, além de convulsões de difícil controle, frequentemente relacionadas à epilepsia.

Principais resultados do estudo

A professora Cristina Hofer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou que as sequelas mais frequentes incluem alterações estruturais do sistema nervoso central, detectadas por exames de neuroimagem, além de anormalidades neurológicas e oftalmológicas.

Entre os principais achados estão:

Microcefalia ao nascer em 71,3% dos casos, sendo 63,9% graves;

Microcefalia pós-natal em 20,4% das crianças;

Prematuridade entre 10% e 20%;

Baixo peso ao nascer em média de 33,2%;

Malformações congênitas como epicanto (40,1%), occipital proeminente (39,2%) e excesso de pele no pescoço (26,7%).

No campo neurológico, foram observados déficit de atenção social em cerca de 50% das crianças, epilepsia em média de 58,3%, e persistência de reflexos primitivos em 63,1%. Alterações oftalmológicas apareceram em até 67,1% dos casos.

Exames de imagem também identificaram calcificações cerebrais (81,7%), ventriculomegalia (76,8%) e atrofia cortical em cerca de metade das crianças avaliadas.

Segundo os pesquisadores, cerca de 30% das crianças acompanhadas já morreram. As sobreviventes, hoje com idades entre 8 e 10 anos, enfrentam dificuldades significativas de inclusão escolar, muitas vezes devido à paralisia cerebral grave e a déficits cognitivos e de aprendizagem.

Recomendações e cuidados permanentes

Atualmente, não existe tratamento específico para o vírus Zika. A principal recomendação é a prevenção, especialmente para gestantes, com uso de repelentes, roupas adequadas e evitar áreas com alta infestação do mosquito Aedes aegypti.

Após o nascimento, as crianças devem iniciar estimulação precoce o mais rapidamente possível, com fisioterapia, fonoaudiologia e terapias multidisciplinares. “A criança tem neuroplasticidade, ou seja, capacidade de formar novas conexões cerebrais, e isso depende de estímulo”, explicou Maria Elizabeth.

Mesmo crianças que não apresentam microcefalia ao nascer, mas cujas mães foram expostas ao vírus durante a gestação, devem ser acompanhadas de perto, pois também podem desenvolver atrasos no desenvolvimento.

Os pesquisadores alertam ainda para o impacto social da doença, que impõe uma carga intensa às famílias, especialmente às mães, muitas vezes abandonadas pelos parceiros após o diagnóstico dos filhos.

Acompanhamento escolar e futuro

O consórcio continuará acompanhando as crianças afetadas para avaliar os impactos da Síndrome Congênita do Zika na vida escolar e no desenvolvimento cognitivo. A recomendação é que crianças nascidas entre 2015 e 2018 sejam monitoradas de forma contínua pela pediatria, mesmo sem sinais evidentes ao nascimento.


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