Documentos oficiais e confidenciais obtidos com exclusividade pela repórter Luiza Tenente, do G1, revelam que a correção das redações do Enem 2025 teria seguido orientações internas diferentes das adotadas em anos anteriores. Embora as competências avaliadas tenham sido mantidas formalmente, especialistas e corretores afirmam que mudanças nos procedimentos operacionais afetaram de forma significativa o desempenho de milhares de candidatos.
Desde a divulgação das notas, em 16 de janeiro, estudantes relataram quedas inesperadas nas pontuações, especialmente entre aqueles que costumavam obter resultados acima de 900 em edições anteriores. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) nega qualquer alteração nos critérios e afirma que o processo manteve isonomia.
Relatos de estudantes
O estudante Vinícius de Oliveira, que faz o Enem anualmente e cursa o quinto ano de medicina, relatou que suas pontuações anteriores variaram entre 900 e 980, mas que em 2025 sua nota caiu para 760 — “nem quando fiz a prova sem compromisso tirei uma nota tão baixa”, disse ele, criticando a correção. Outro candidato de 23 anos, Guilherme, que nunca havia obtido menos de 900, relatou ter recebido 740 em 2025.
O que mostram os documentos
O material obtido pelo G1 inclui cópias de e-mails, documentos internos e depoimentos de corretores, que apontam pelo menos três mudanças operacionais que teriam alterado a lógica da correção das redações em 2025.
1. Competência 4 avaliou coesão de forma subjetiva
A competência 4 — que avalia o uso de elementos coesivos como conectivos e articuladores de ideias — teria deixado de ter um critério objetivo de contagem para uma avaliação mais subjetiva. Termos como “pontual”, “regular”, “constante” ou “expressiva” teriam sido usados internamente por corretores para classificar a presença desses elementos, sem parâmetros numéricos claros, segundo relato de corretores.
2. Penalização ampliada na competência 5
A competência 5, que trata da proposta de intervenção, continuou a exigir a presença de cinco elementos: ação, agente, finalidade, meio e detalhamento. Em edições anteriores, a falta de qualquer um deles resultava na perda de 40 pontos por item. No Enem 2025, porém, instruções internas teriam determinado que a ausência do elemento “ação” resultaria em penalização de 120 pontos, penalizando textos que, de outra forma, atenderiam parcialmente às exigências.
3. Maior peso do repertório sociocultural
Os documentos também indicam que o critério de repertório sociocultural — parte da competência 2 — passou a impactar outras competências, como a 3, em avaliações adicionais, o que, para corretores ouvidos sob anonimato, foi um dos principais fatores para a queda generalizada de notas.
Negativa do Inep
Procurado pelo G1, o presidente do Inep, Manuel Palacios, afirmou que não houve qualquer mudança nos critérios de correção da redação do Enem 2025. Em nota, o instituto reforçou que a metodologia permanece a mesma: cada redação é avaliada por pelo menos dois corretores de forma independente, com possibilidade de terceira correção em caso de divergências, garantindo “equilíbrio, justiça e tratamento isonômico” a todos os participantes.
Impacto no Sisu
A reportagem aponta que a difusão de notas mais baixas em 2025 ganhou contornos ainda mais sensíveis porque, em 2026, o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) passou a aceitar as notas das três últimas edições do Enem (2023, 2024 e 2025). Estudantes que dependem exclusivamente da nota de 2025 sentiram maior sensação de injustiça, argumentando que a rigidez percebida na correção os coloca em desvantagem em relação àqueles que usam notas de anos anteriores com padrões avaliativos que teriam sido mais objetivos.
Condições de trabalho dos corretores
A reportagem também apurou que os corretores de redação recebem cerca de R$ 3 por texto corrigido e chegam a avaliar até 200 redações por dia, enfrentando dificuldades com instabilidades de sistema e ruídos de comunicação durante os treinamentos. Avaliadores relataram inconsistências entre orientações de supervisores, o que teria agravado a subjetividade na correção das redações.
O Cebraspe, responsável técnico pela correção desde 2023, afirmou que apenas o Inep pode responder sobre critérios e normas, enquanto o Inep evitou comentar publicamente sobre remuneração e condições de trabalho dos corretores.
2024:
Com informações de: G1
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