Mandados foram expedidos pelo
STF. Entre os presos também está uma advogada - Foto: Reprodução
A Polícia Federal (PF)
deflagrou, nesta segunda-feira, a Operação Anomalia para desarticular um núcleo
criminoso que atuava na negociação de vantagens indevidas e venda de influência
para favorecer os interesses de um traficante internacional de drogas. Entre os
que foram presos está o delegado federal Fabrizio José Romano. Além dele,
também teve um mandado de prisão cumprido o ex-secretário estadual Alessandro
Pitombeira Carracena. Ele já estava detido desde 2025, por conta de outra
prisão decretada pela Justiça. Na época, também foi preso, na mesma ação, o
então deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos, o TH Joias.
A Polícia Federal investiga a
suspeita de que o delegado e o ex-secretário tenham recebido propina de uma
advogada, também presa nesta segunda-feira, para interferir num processo de
extradição do traficante holandês Gerel Lusiano Palm, de 38 anos, preso em
2021, no Rio, por tentativa de homicídio, porte ilegal de armas e tráfico de
drogas. Os investigadores descobriram ainda que o traficante Gabriel Dias de
Oliveira, o Índio do Lixão — preso desde setembro do ano passado na mesma
operação de TH Joias — estaria pagando ao delegado para evitar que Gerel fosse
extraditado, embora o delegado Fabrizio não fosse do caso.
Durante a Operação Anomalia,
foram expedidos quatro mandados de prisão preventiva e três de busca e
apreensão, cumpridos na cidade do Rio de Janeiro, além de medidas cautelares
diversas, como afastamento do exercício de função pública. As ordens judiciais
foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal. De acordo com a investigação, as
provas colhidas indicam que os investigados estruturaram uma associação
criminosa voltada para a prática de crimes contra a administração pública e
favorecimento de interesses atrelados ao tráfico de drogas.
O esquema contava com a
articulação de um ex-secretário de estado e advogados, que atuavam como
intermediários para viabilizar favores e pagamentos indevidos em espécie ao
delegado de Polícia Federal envolvido no esquema, em troca de informações e
influência interna. As apurações revelaram, ainda, a atuação de um indivíduo
com histórico criminal, focado na facilitação política e operacional em
Brasília.
A ação integra a Força-Tarefa
Missão Redentor II, instituída em cumprimento ao Acórdão da ADPF 635, que visa
assegurar a atuação uniforme e coordenada da Polícia Federal na produção de
inteligência e repressão aos principais grupos criminosos violentos no Estado
do Rio de Janeiro, com foco especial na desarticulação de suas conexões com
agentes públicos e políticos.
Quem era o delegado preso
Nas redes sociais, o delegado da Polícia Federal Fabrizio Ramano, preso nesta segunda-feira, costumava compartilhar reflexões sobre a própria carreira e episódios que, segundo ele, "marcaram sua trajetória na corporação". Em publicações no perfil pessoal com pouco mais de 266 seguidores, Ramano descrevia a preparação para o concurso da Polícia Federal e relatava operações que teria conduzido desde o início da vida profissional.
Em um dos textos, ele afirmou
ter adotado uma rotina de estudos “extremamente rígida” ao se preparar para o
concurso de delegado, baseada, segundo escreveu, em “método, planejamento e
disciplina absoluta”. Na publicação, Ramano disse que a aprovação ocorreu na
primeira tentativa, resultado que atribuiu ao “foco, estratégia e
comprometimento integral com a missão de servir ao Estado brasileiro na
atividade de polícia judiciária da União”.
O delegado também relatava
que, durante a preparação, ouviu de outras pessoas que a carreira seria
“inacessível para a maioria” e marcada por uma carga elevada de
responsabilidade. Ainda assim, afirmou que manteve a convicção de que
alcançaria o objetivo e que avançou “etapa por etapa”, sustentado pela própria
determinação.
Já como integrante da
corporação, Ramano dizia ter iniciado uma rotina de participação em operações e
diligências contra organizações criminosas. Em uma das postagens, recordou que,
apenas oito dias após ingressar na Polícia Federal, teria participado de uma
grande apreensão de drogas na cidade de Ponta Porã, na região de fronteira com
o Paraguai.
Segundo o relato publicado, a
operação resultou na apreensão de três toneladas de maconha — episódio que ele
descreveu como "um dos momentos mais marcantes do início da carreira"
e que, segundo afirmou, consolidou seu compromisso com o combate ao
narcotráfico e ao crime organizado.
Vida política
Já o ex-secretário de governo
Alessandro Pitombeira Carracena já foi secretário municipal de Ordem Pública da
capital, na gestão de Marcelo Crivella na Prefeitura do Rio, em 2020, e
secretário estadual de Esporte e Lazer do Rio, na gestão do governador Cláudio
Castro, em 2022. Ele foi subsecretário estadual de Defesa do Consumidor, cargo
do qual foi exonerado em janeiro deste ano.
Em todas essas pastas ele
atuou ao lado de Gutemberg de Paula, nome indicado pelo senador Flávio
Bolsonaro no governo do Rio e na gestão de Crivella. Além disso, o próprio
Carracena teria sido indicado pelo senador para substituir Gutemberg na
secretaria de Esporte, quando o aliado deixou o governo para tentar uma vaga de
deputado federal pelo Partido Liberal. Ao GLOBO, na época, Flavio Bolsonaro
negou:
— Se estive com ele duas vezes
na vida foi muito. Quem me apresentou foi o secretário estadual de Defesa do
Consumidor Gutemberg Fonseca — afirmou o senador.
TH Joias
Thiego Raimundo, o TH Joias,
não foi alvo da Operação Anomalia. Ele perdeu o mandato, em 2025, após outro
parlamentar, de quem era suplente, ter retornado à Assembleia Legislativa após
deixar o secretariado estadual. Na ocasião, as investigações apontavam que TH
integrava um esquema de corrupção envolvendo a liderança do CV no Complexo do
Alemão e agentes políticos e públicos. Segundo os investigadores, a
“organização infiltrava-se na administração pública para garantir impunidade e
acesso a informações sigilosas, além de importar armas do Paraguai e
equipamentos antidrone da China, revendidos até para facções rivais”
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