Trecho da falha de San Andreas na planície de Carrizo, na Califórnia, onde o deslocamento do terreno alterou o curso de riachos. — Foto: Doc Searls
Um novo modelo computacional revelou que a pressão geológica
nas falhas de San Andreas e San Jacinto, localizadas no sul do estado da
Califórnia (EUA), atingiu o patamar mais elevado dos últimos mil anos. A
pesquisa, detalhada no periódico científico Journal of Geophysical Research:
Solid Earth, utilizou simulações digitais baseadas em dados históricos para
mapear o volume de energia mecânica retido nessas estruturas.
Embora a falha de San Andreas — que delimita o contato entre
as placas tectônicas do Pacífico e da América do Norte — seja frequentemente
associada ao temido terremoto "Big One", os especialistas
responsáveis pelo artigo reforçam que os dados não funcionam como uma
previsão e não estabelecem um prazo ou contagem regressiva para um desastre
iminente.
A geofísica Liliane Burkhard, pesquisadora da Universidade de
Berna, na Suíça, e líder do projeto, explicou que o objetivo do mapeamento não
é causar pânico:
"Isso não significa que as falhas precisam se romper
imediatamente ou em breve, e não nos dá uma data, um ano ou uma contagem
regressiva para o próximo terremoto."
Entendendo a dinâmica do acúmulo de energia
Para reconstruir o histórico de tensões na região ao longo de
dez séculos, os cientistas avaliaram registros geológicos indiretos, como as
marcas de crescimento em anéis de árvores e o deslocamento histórico de
sedimentos.
As placas tectônicas locais avançam alguns centímetros
anualmente, mas esse movimento encontra resistência. Em determinados trechos, o
forte atrito impede o deslizamento contínuo das rochas, gerando pontos de
bloqueio. À medida que o tempo passa, a deformação do terreno aumenta até que
os limites de resistência física das rochas sejam superados, resultando em uma
ruptura abrupta que libera energia em forma de ondas sísmicas.
No segmento sul da falha de San Andreas, a última grande
liberação energética significativa ocorreu há mais de um século e meio, durante
o sismo de Fort Tejon em 1857, que atingiu uma magnitude de 7,9. Desde então, a
região continuou a represar forças sem eventos compensatórios equivalentes.
O perigo de uma ruptura combinada no Cajon Pass
O foco central do estudo aponta para uma preocupação
geográfica específica: o Cajon Pass, um acidente geográfico situado a
menos de 100 quilômetros de Los Angeles. É justamente nessa área que a
extremidade sul da falha de San Andreas quase se cruza com a porção norte da
falha de San Jacinto.
O modelo indicou que a estabilidade dessa passagem depende da
disparidade de forças entre os dois lados. De acordo com as simulações, os
patamares de tensão acumulados em trechos cruciais de ambos os lados estão se
equalizando. Essa paridade física cria um cenário ideal para que uma eventual
ruptura iniciada em uma das falhas atravesse o Cajon Pass e ative a outra falha
em sequência.
- Pico
em San Jacinto:
O estudo estimou uma pressão de até 3,6 megapascais em algumas áreas, o
maior valor já simulado para os últimos mil anos naquela estrutura.
- Pico em San Andreas: Setores específicos registraram tensões de até 2,8 megapascais, também superando marcas históricas anteriores.
Caso ocorra um sismo que consiga percorrer as duas falhas
consecutivamente, a magnitude estimada flutuaria entre 7,4 e 7,8, espalhando os
impactos por uma extensão territorial muito mais ampla do que um abalo
individualizado. Essa dinâmica já ocorreu no passado, como no terremoto de
Wrightwood em 1812.
Alerta para prevenção de longo prazo
A equipe de pesquisa descreve que partes do complexo
geológico estão "criticamente carregadas". No entanto, Liliane
Burkhard salienta que os resultados devem servir estritamente para o
planejamento urbano e de engenharia civil de longo prazo, voltados para o
reforço de vias de transporte público, edifícios e redes estruturais de
abastecimento (água e energia).
A cientista também pontuou que os recentes tremores de terra
registrados na Venezuela, no Japão e mesmo em outras áreas da própria
Califórnia não possuem conexão com a situação observada nas falhas de San
Andreas e San Jacinto. Por ocorrerem em placas ou sistemas independentes e a
distâncias de centenas ou milhares de quilômetros, as transferências de
estresse mecânico geradas por esses abalos externos são consideradas
insignificantes ou totalmente nulas para a região estudada.
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