O Ceará está entre os estados brasileiros com os piores indicadores de acesso e qualidade da energia elétrica, segundo o Ranking de Competitividade dos Estados, elaborado pelo Instituto Centro de Liderança Pública (CLP).
Apesar dos resultados negativos nesses dois indicadores, o Estado aparece com um dos menores custos de energia elétrica do país, ocupando a 6ª posição entre os 27 entes federativos.
O ranking analisa dez pilares da competitividade dos estados. No eixo de infraestrutura, são considerados indicadores relacionados a energia elétrica, telecomunicações, saneamento básico e fibra óptica, entre outros.
Ceará ocupa 19º lugar em qualidade da energia
Na avaliação da qualidade da energia elétrica, o Ceará aparece na 19ª colocação entre os 27 estados, duas posições abaixo do resultado registrado em 2025.
O indicador considera o Desempenho Global de Continuidade (DGC) das distribuidoras de energia, calculado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), levando em conta a duração e a frequência das interrupções no fornecimento.
No ranking divulgado neste ano pela Aneel, a Enel Distribuição Ceará aparece na 23ª posição entre 33 distribuidoras, com nota 0,82 no indicador.
Goiás aparece com a pior avaliação de qualidade da energia elétrica entre os estados, enquanto Roraima ocupa a primeira colocação. O estado passou a integrar o Sistema Elétrico Nacional em 2025.
Acesso à energia também apresenta queda no ranking
No indicador de acesso à energia elétrica, o Ceará ocupa a 20ª posição, quatro colocações abaixo do levantamento anterior.
O CLP considera o percentual de domicílios atendidos por energia elétrica, seja por meio da rede geral ou de fontes alternativas, utilizando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo o Observatório Brasileiro de Erradicação de Pobreza Energética, aproximadamente 0,4% dos domicílios cearenses estão em situação de pobreza energética. O Estado aparece entre os que possuem maior número de famílias nessa condição, atrás de Pará, Piauí, Amazonas e Acre.
Apesar da queda nas posições, o analista de Competitividade do CLP, Wesley Barcelos, explica que o resultado não significa necessariamente uma piora nominal dos serviços.
“O Ceará registrou a mesma nota nos dois indicadores no ranking de 2025, o que indica que não houve perda nominal nesses segmentos”, afirmou.
Segundo Barcelos, a queda está relacionada principalmente à evolução de outros estados.
“A queda do estado nesses indicadores não representa uma deterioração dos serviços de acesso e qualidade da energia elétrica, mas sim uma perda relativa de competitividade nos indicadores frente à performance dos outros estados”, explicou.
Enel afirma que houve evolução no serviço
Em nota, a Enel Distribuição Ceará afirmou que os indicadores de continuidade do serviço apresentaram evolução nos últimos anos e permaneceram melhores que as metas estabelecidas pela regulação.
Sobre o acesso à energia, a empresa declarou que o Ceará possui 100% da área de concessão universalizada, sem utilização de fontes isoladas para atender unidades específicas em áreas remotas, conforme dados da Aneel.
Baixa qualidade pode afetar investimentos
Para o professor do curso de Finanças da Universidade Federal do Ceará (UFC) e pesquisador de macroeconomia Gildemir Ferreira da Silva, a qualidade do fornecimento de energia pode influenciar diretamente a capacidade do Estado de atrair investimentos privados.
Entre os possíveis impactos estão prejuízos para equipamentos, aumento de custos operacionais e necessidade de investimentos públicos em infraestrutura.
“Impacta a indústria, pode gerar danos frequentes aos maquinários, aumenta os custos de contingência. E agora, com essa questão dos data centers, pode ter um desincentivo à instalação, tendo em vista que a energia não tem qualidade contínua”, avaliou.
O pesquisador considera ainda que existe um contraste entre a capacidade de geração energética do Ceará e a estrutura de distribuição.
“Nós produzimos muita energia e temos a capacidade de dar uma produção, mas não temos uma rede de distribuição muito estruturada, temos vácuos no interior. São gargalos históricos no caso da infraestrutura de distribuição cearense”, afirmou.
O gerente de Desenvolvimento Sustentável da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Joaquim Rolim, destacou que os impactos sobre a indústria variam conforme o nível de modernização e automação de cada setor.
Entre as consequências apontadas estão perda de produção, substituição antecipada de equipamentos, multas contratuais e perda de clientes.
Rolim também afirmou que a Enel vem realizando investimentos e que há percepção de melhoria na qualidade do serviço, embora os efeitos sobre a satisfação dos consumidores possam levar mais tempo para aparecer.
Ceará tem o 6º menor custo de energia
Apesar dos problemas apontados nos indicadores de acesso e qualidade, o Ceará apresenta um dos menores custos de energia elétrica do país.
O Estado ocupa a 6ª posição no ranking de menor custo, com nota 76,49, duas posições acima do levantamento anterior.
O indicador considera a tarifa média, já com impostos, para consumidores das classes comercial, residencial, industrial e rural, ponderada pela participação de cada categoria no consumo total.
Segundo dados da Aneel, a tarifa média de fornecimento da Enel Ceará, já com tributos, é de R$ 537,16 por MWh. Para consumidores residenciais, a média tarifária chega a R$ 606,86 por MWh.
De acordo com especialistas ouvidos na análise, o menor custo pode estar relacionado, entre outros fatores, ao nível de renda das famílias cearenses e à existência de mecanismos de redução de tarifas para consumidores de baixa renda, como a tarifa social.
Ao mesmo tempo, a avaliação aponta a necessidade de ampliar investimentos privados e fortalecer setores capazes de gerar maior renda e atividade econômica no Estado.
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