Do luto à esperança: como funciona a corrida pela doação e transplante de órgãos no Ceará

 

Fotos: Thiago Gadelha, Ismael Soares - Diário do Nordeste


Processo envolve hospitais, Central de Transplantes e dezenas de profissionais; após a confirmação da morte encefálica, cada etapa precisa ser realizada com rapidez para garantir a preservação dos órgãos


Uma suspeita de morte encefálica em um hospital de Fortaleza desencadeou uma complexa operação envolvendo equipes médicas, profissionais de enfermagem, psicólogos, assistentes sociais, Central de Transplantes e equipes especializadas em captação e transplante de órgãos.


O caso, acompanhado pelo Diário do Nordeste, mostra como funciona a engrenagem responsável por transformar um momento de luto para uma família em uma possibilidade de recomeço para pacientes que aguardam por um transplante.


Em 2025, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes, da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), foram realizados 2.192 transplantes de órgãos no Ceará. No mesmo período, pelo menos 2.658 pacientes aguardavam por um órgão no Estado.


A situação acompanhada pela reportagem começou com a suspeita de morte encefálica de um paciente adulto no Hospital Leonardo da Vinci, na Aldeota, em Fortaleza. O protocolo foi iniciado pela manhã e a confirmação ocorreu somente horas depois.


A morte encefálica é caracterizada pela interrupção completa e irreversível das funções cerebrais. Mesmo com o coração ainda funcionando e o organismo mantido por aparelhos, a confirmação exige o cumprimento de um rigoroso protocolo médico.


Como é confirmada a morte encefálica

No Brasil, a retirada de órgãos e tecidos para transplante somente pode ocorrer após a constatação e o registro da morte encefálica por dois médicos diferentes.


Esses profissionais não podem fazer parte das equipes responsáveis pela retirada ou pelo transplante dos órgãos.


O protocolo envolve avaliações clínicas e um exame complementar. Entre os exames que podem ser utilizados estão o eletroencefalograma, o doppler transcraniano e a cintilografia.


Segundo profissionais ouvidos pelo Diário do Nordeste, o paciente com suspeita de morte encefálica geralmente está internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), sob ventilação mecânica e apresenta uma lesão neurológica grave e irreversível.


Entre as situações que podem levar ao quadro estão traumatismos cranioencefálicos, paradas cardíacas, tumores cerebrais e afogamentos.


No Ceará, 57 hospitais públicos, privados e filantrópicos estão cadastrados no Sistema Nacional de Transplantes e podem atuar como hospitais notificantes.


Família precisa autorizar a doação

Após a confirmação da morte encefálica, a família é acolhida e recebe todas as informações sobre o diagnóstico.


Somente depois de os familiares compreenderem e aceitarem a confirmação do óbito é apresentada a possibilidade de doação dos órgãos.


No caso acompanhado pela reportagem, a família autorizou a doação.


Em 2025, 55% das famílias cearenses que perderam parentes em situação de morte encefálica aceitaram a doação de órgãos.


A autorização deu início a uma nova etapa da operação. A documentação foi encaminhada à Central de Transplantes do Ceará, responsável por coordenar todo o processo.


Naquele caso, foram autorizadas as captações de fígado, rins e córneas.


Central de Transplantes coordena a seleção dos receptores

A Central de Transplantes do Ceará integra a estrutura da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa) e funciona 24 horas por dia.


Após o cadastramento do doador e a análise das informações clínicas, o sistema gera automaticamente a relação de possíveis receptores.


A seleção segue critérios técnicos e a ordem de espera. As equipes dos hospitais e dos centros transplantadores não podem interferir na escolha.


Os pacientes indicados precisam ainda passar por uma avaliação médica. Caso estejam clinicamente impossibilitados de realizar o procedimento, como em situações de infecção ou outras condições de saúde, o órgão pode ser destinado ao próximo paciente compatível.


Captação precisa ser rápida

A rapidez é fundamental porque, depois da morte encefálica, os órgãos podem perder qualidade progressivamente.


No caso acompanhado pelo Diário do Nordeste, a equipe responsável pela captação retirou inicialmente o fígado. Em seguida, foram retirados os rins e as córneas.


O fígado recebeu uma solução específica de preservação e foi acondicionado em uma caixa térmica com gelo para ser transportado até o Hospital Geral de Fortaleza (HGF).


A distância entre os hospitais foi percorrida em aproximadamente 11 minutos, em um veículo com sirene e autorização para avançar durante o deslocamento.


O objetivo era reduzir ao máximo o período entre a retirada do órgão e o início do transplante.


Transplante no Hospital Geral de Fortaleza

Enquanto a captação acontecia no Hospital Leonardo da Vinci, a equipe do HGF preparava o receptor para receber o fígado.


O procedimento contou com mais de dez profissionais simultaneamente, entre cirurgiões, anestesistas, enfermeiros e outros integrantes da equipe especializada.


Antes do implante, o órgão passou pela chamada cirurgia de bancada, etapa em que o fígado doado é inspecionado e preparado para ser colocado no receptor.


Depois, os médicos retiraram o fígado doente e implantaram o órgão doado.


A cirurgia terminou às 22h14.


Para a família doadora, aquele dia foi marcado pelo luto. Para os pacientes que receberam os órgãos, a decisão representou uma nova possibilidade de vida.


Uma rede que depende de solidariedade e precisão

O processo de doação e transplante envolve uma grande rede de profissionais e instituições. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, anestesistas, psicólogos, assistentes sociais, motoristas e profissionais administrativos participam de diferentes etapas.


A Central de Transplantes atua como elo entre hospitais, equipes de captação e pacientes que aguardam na fila.


Em situações de captação no interior do Ceará, equipes especializadas podem precisar viajar de avião fretado ou helicóptero para buscar os órgãos e garantir que eles cheguem aos receptores dentro do tempo adequado.


O procedimento demonstra como a doação de órgãos transforma uma situação marcada pela perda em uma possibilidade concreta de sobrevivência para outras pessoas.


Fonte e reprodução: Diário do Nordeste.

Créditos da reportagem original: Thatiany Nascimento, repórter; Ismael Soares, produtor audiovisual; Jemmyle Cunha, Lincoln Souza e Louise Dutra, equipe de arte; Dahiana Araújo e Nícolas Paulino, editores de DN Ceará; Karine Zaranza, coordenadora de Jornalismo; G. André Melo, gerente de Audiovisual; Ívila Bessa, gerente de Jornalismo; Gustavo Bortoli, diretor de Jornalismo.

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