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| Foto Reprodução |
Atribui-se ao missionário
holandês Júlio Maria de Lombaerde, que desembarcou no ano de 1912 em Pernambuco
para espalhar o evangelho pelo Brasil, uma frase que resumiu com ênfase o papel
da religião na identidade nacional: “Um ideal de pátria brasileira sem a fé
católica é um absurdo histórico e uma impossibilidade política”, dizia o
respeitado padre. Naquele início do século XX, a afirmação ganhava contornos de
postulado. O país era então essencialmente agrário, governado por barões do
café, distante das revoluções culturais que agitavam a Europa — e tinha na
Santa Sé farol inabalável.
O mundo deu profundas voltas,
sacudindo costumes, mudando anseios e abrindo novas portas para o exercício da
fé, o que se refletiu no mais alto grau em solo brasileiro, onde ainda se
concentra a maior população católica do planeta, de extraordinários 120 milhões
de fiéis. O rebanho, porém, anda encolhendo em ritmo acelerado — fenômeno que
encontra eco mundo afora e mobiliza as engrenagens no Vaticano, agora liderado
pelo americano Robert Prevost, o recém-ungido papa Leão XIV.
Atribui-se ao missionário
holandês Júlio Maria de Lombaerde, que desembarcou no ano de 1912 em Pernambuco
para espalhar o evangelho pelo Brasil, uma frase que resumiu com ênfase o papel
da religião na identidade nacional: “Um ideal de pátria brasileira sem a fé
católica é um absurdo histórico e uma impossibilidade política”, dizia o
respeitado padre. Naquele início do século XX, a afirmação ganhava contornos de
postulado. O país era então essencialmente agrário, governado por barões do
café, distante das revoluções culturais que agitavam a Europa — e tinha na
Santa Sé farol inabalável.
O mundo deu profundas voltas,
sacudindo costumes, mudando anseios e abrindo novas portas para o exercício da
fé, o que se refletiu no mais alto grau em solo brasileiro, onde ainda se
concentra a maior população católica do planeta, de extraordinários 120 milhões
de fiéis. O rebanho, porém, anda encolhendo em ritmo acelerado — fenômeno que
encontra eco mundo afora e mobiliza as engrenagens no Vaticano, agora liderado
pelo americano Robert Prevost, o recém-ungido papa Leão XIV.
É com essa multidão que já não
se sente tão ligada às engessadas estruturas eclesiásticas e sai em busca de
respostas em credos diversos, ou em nenhum, que Leão XIV terá de estabelecer
conversa daqui para frente. O recuo no contingente católico vem sendo notado há
décadas na Europa e na América Latina — onde, aliás, o novo pontífice selou
laços nos tempos em que serviu no Peru, vantagem na duríssima tarefa de tentar
reverter o declínio em marcha. O alento vem apenas de países africanos e
asiáticos, nos quais ainda se avista certo avanço do catolicismo. O Brasil é o
caso mais emblemático da debandada. Em 1940, data do primeiro Censo do IBGE, a
turma que se definia católica cravava 95% da população, mas a partir dos anos
1980 o número foi caindo, caindo, até que o mais recente levantamento, de 2010,
indicava uma proporção de 64%. A seguir o ritmo de hoje, em 2032 os evangélicos
serão a maioria no Brasil (39,8% versus 39,6% de católicos), segundo
respeitadas projeções do demógrafo José Eustáquio Alves.
São alertas contundentes de
que é preciso sacudir a poeira nas paróquias, de modo a arejar a instituição —
o que, aos olhos de um grupo de católicos, o papa Francisco, antecessor do
atual ocupante do Trono de Pedro, conseguiu. “Ele gerou conflitos, mas nos
acolheu como nenhum papa até agora fez”, diz o arquiteto Pablo Moreira, 27
anos, bissexual, que celebrou a bênção que passou a ser autorizada a casais
gays por instrução de Francisco. Muitos outros tópicos sujeitos a
controvérsias, contudo, como a própria união de pessoas do mesmo sexo e a
ordenação de mulheres no sacerdócio, persistem como tabu. Os moldes ainda
rígidos das celebrações são também um fator que espanta o rebanho. “Não tenho
muita paciência para ir à missa. É um tal de senta e levanta. Muita coisa do
que o padre fala não faz sentido para mim”, afirma a dona de casa Roberta
Magalhães, 58 anos, que prefere “conversar com Deus em minhas próprias
orações”.
Razões demográficas
contribuíram de forma decisiva para uma completa mudança de perfil da sociedade
brasileira, o que se refletiu fortemente em queda da adesão ao catolicismo. A
partir dos anos de 1950, a população foi deixando de ser majoritariamente rural
para se tornar mais urbana, virada registrada em apenas três décadas. Ao se
instalar nas periferias das grandes cidades, essa imensa massa que brotava ali
à procura de vida melhor esbarrou com igrejas que pouco dialogavam com suas
aspirações e, não raro, enveredavam por rota oposta. “Ter uma família numerosa
e conformada com a baixa possibilidade de prosperar deixou de fazer sentido em
uma sociedade moderna”, afirma Eustáquio Alves.
Enquanto a Cúria Romana perdia
o bonde da história, as denominações evangélicas expandiam seus domínios de
forma estratégica, instalando-se em garagens, cinemas e galpões abandonados,
garantindo espaço em zonas populosas e carentes. “As correntes pentecostais e
neopentecostais atrelaram o exercício religioso a uma prática coletiva e
comunitária, o que a Igreja católica foi deixando de fazer”, diz o filósofo
Mario Sergio Cortella. Sob essa moldura, não espanta que 27% da amostra ouvida
pela MindMiners cogite, em algum momento, migrar do catolicismo para alguma
outra religião — 61% deles para as fileiras evangélicas.
Historicamente, como ocorreu
em boa parte da América Latina, a resposta no Brasil ao acelerado avanço
protestante veio na forma de uma tentativa de trazer a Igreja mais à terra firme,
iniciativa encampada pela Teologia da Libertação a partir do fim dos anos 1960,
em plena ditadura militar, aliando o marxismo ao evangelho. Nas chamadas
comunidades eclesiais de base, os padres promoviam discussões de cunho
político, com o declarado propósito de despertar uma “consciência de classe”. O
efeito colateral foi afugentar uma porção do rebanho que não queria ser
deslocada do plano celestial nem tampouco se identificava com o púlpito de
coloração esquerdista. Em meio à Guerra Fria, João Paulo II, o pontífice
anticomunista, chegou a enviar ao país, em 1985, o então cardeal alemão Joseph
Ratzinger, que se tornaria seu sucessor como Bento XVI, justamente para
desarticular essa ala que, para ele, era evidente obstáculo para a fé genuína.
Por estímulo de João Paulo II,
pontífice de pendor populista, o “João de Deus”, que beijava o chão dos lugares
por onde passava, a Igreja foi ganhando corpo no Brasil — apenas nas últimas
três décadas, a quantidade de clérigos saltou 34% e as paróquias e dioceses quase
dobraram de número, ultrapassando os 12 000 templos. Mas aí deu-se o fenômeno
sobre o qual o antropólogo Rodrigo Toniol, da UFRJ, se debruça: “Quanto mais a
Igreja se institucionalizou, mais perdeu seguidores”, diz.
Fonte Veja

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