Do fumacê ao “mosquito do bem”: Ceará aposta em novas tecnologias contra a dengue

 

Foto: Fabiane de Paula - Diário do Nordeste / Estratégias vão do monitoramento de criadouros e armadilhas com larvicida ao uso da bactéria Wolbachia para reduzir a capacidade do Aedes aegypti de transmitir doenças

Durante décadas, o fumacê foi uma das principais imagens do combate ao Aedes aegypti nas ruas do Ceará. O veículo que espalhava inseticida durante surtos de dengue fazia parte da rotina de muitas cidades, mas a evolução do mosquito e o desenvolvimento de novas tecnologias mudaram a estratégia de enfrentamento das arboviroses.


O método conhecido tecnicamente como Ultra Baixo Volume (UBV) continua sendo utilizado, mas passou a ter um papel mais específico. Isso ocorre porque o inseticida elimina apenas os mosquitos adultos que entram em contato com o produto e não atinge ovos, larvas ou pupas.


Além disso, o uso repetido de inseticidas contribuiu para o desenvolvimento de resistência do Aedes aegypti. Atualmente, segundo a Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), já são utilizadas diferentes gerações de inseticidas para tentar manter a eficácia do método.


Fumacê virou medida emergencial

Apesar de ter perdido espaço, o fumacê não desapareceu completamente. Ele ainda pode ser utilizado em situações específicas, principalmente durante surtos ativos.


Em agosto de 2026, por exemplo, o município de Sobral, no Norte do Ceará, iniciou um novo ciclo de aplicação de inseticida com o carro fumacê.


A estratégia, porém, é considerada complementar. A eliminação dos criadouros continua sendo fundamental para impedir a reprodução do mosquito.


Segundo especialistas, grande parte dos focos está dentro ou no entorno das próprias residências, o que torna a participação da população essencial no controle do vetor.


Armadilhas fazem o mosquito trabalhar contra o próprio mosquito

Entre as novas estratégias utilizadas no Ceará estão as Estações Disseminadoras de Larvicida (EDLs).


A tecnologia funciona como uma espécie de armadilha. O recipiente atrai a fêmea do Aedes aegypti, que entra em contato com micropartículas de larvicida antes de sair.


O mosquito então leva o produto em suas patas para outros locais onde poderá depositar ovos.


Dessa maneira, a própria fêmea ajuda a transportar o larvicida para criadouros que podem ser de difícil acesso para os agentes de combate às endemias.


Em Fortaleza, as EDLs começaram a ser implantadas em abril de 2026. A capital já conta com mais de 12 mil unidades, instaladas inicialmente em áreas consideradas mais vulneráveis.


Entre os bairros que recebem a tecnologia estão Parque Santa Maria, Conjunto Palmeiras, Jangurussu e Barroso.


Ovitrampas ajudam a localizar onde o mosquito está

Outra ferramenta utilizada pelos agentes são as ovitrampas, recipientes preparados para atrair as fêmeas do mosquito e permitir o monitoramento da quantidade de ovos depositados.


A tecnologia tem baixo custo e ajuda a identificar regiões onde existe maior concentração do Aedes aegypti.


Apesar da simplicidade, a utilização ainda é limitada. Segundo informações apresentadas na reportagem, menos de 40 municípios cearenses utilizam atualmente esse sistema.


Os dados coletados ajudam a orientar as equipes de vigilância e direcionar ações de combate.


O desafio do armazenamento de água

No Ceará, o controle do mosquito possui ainda um desafio particular: o armazenamento de água.


Em áreas onde o abastecimento é irregular, famílias precisam manter água armazenada em recipientes e reservatórios.


Esses locais podem se transformar em criadouros caso não sejam adequadamente protegidos.


Por isso, especialistas destacam que o combate ao Aedes aegypti precisa considerar também as condições de abastecimento e a realidade de cada comunidade.


A aposta no mosquito que não transmite dengue

Se eliminar completamente o Aedes aegypti se tornou uma tarefa extremamente difícil, uma das novas estratégias busca mudar o próprio comportamento do mosquito.


É o chamado Método Wolbachia.


A tecnologia utiliza uma bactéria chamada Wolbachia, encontrada naturalmente em diversas espécies de insetos. Quando presente no Aedes aegypti, ela reduz a capacidade do mosquito de transmitir vírus como dengue, zika e chikungunya.


Os mosquitos utilizados na estratégia não são geneticamente modificados. A diferença é que eles carregam a bactéria.


A Wolbachia também pode ser transmitida naturalmente para a descendência do mosquito, permitindo que a característica se espalhe pela população ao longo do tempo.


Tecnologia chegará a três municípios do Ceará

O Ceará está entre os estados brasileiros selecionados para a expansão do Método Wolbachia.


Em 2025, três municípios cearenses foram escolhidos para receber a estratégia: Eusébio, Crato e Maranguape.


Atualmente, o projeto está na etapa de comunicação e mobilização da população.


Em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza, a Fiocruz está construindo um insetário que servirá como estrutura de apoio para a produção e desenvolvimento dos mosquitos com Wolbachia.


Ainda não existe uma data definida para o início da soltura dos mosquitos nas áreas selecionadas.


A Fiocruz explica que, antes da liberação, os insetos passam por reprodução com mosquitos locais para garantir maior compatibilidade com a população de Aedes aegypti existente na região.


Também existe uma biofábrica de mosquitos Wolbachia em Eusébio, mas as obras estão atualmente suspensas e sem previsão de retomada.


Nenhuma tecnologia substitui a eliminação dos criadouros

Apesar dos avanços, especialistas alertam que nenhuma das tecnologias, isoladamente, consegue controlar o mosquito.


O fumacê, as EDLs, as ovitrampas e o Método Wolbachia fazem parte de estratégias diferentes e complementares.


A medida mais básica continua sendo evitar que o Aedes aegypti encontre locais adequados para colocar seus ovos.


Isso significa eliminar água parada, manter caixas-d'água fechadas, limpar recipientes e observar regularmente quintais, calhas, vasos, pneus e outros pontos que possam acumular água.


Depois de décadas convivendo com a dengue, o Ceará passa por uma transformação na forma de enfrentar o mosquito: do inseticida lançado pelas ruas para tecnologias que buscam monitorar, impedir a reprodução e até reduzir a capacidade do próprio mosquito de transmitir doenças.


A próxima fronteira dessa batalha, porém, está em outra frente de prevenção: a vacinação contra a dengue.

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