Eweline Passos Rodrigues migrou do Comando Vermelho para o Terceiro Comando Puro antes de ser executada, ostentando armas pesadas e desafiando facções rivais nas redes sociais, onde coleciona cerca de 70 mil seguidores
Por
Anna Bustamante
, O Globo — Rio de
Janeiro
Eweline Passos Rodrigues, de
28 anos, conhecida como “Diaba Loira”, era casada e tinha dois filhos — Foto:
Reprodução
De vítima de uma tentativa de
feminicídio em Santa Catarina a traficante ligada às duas maiores facções do
Rio, Eweline Passos Rodrigues, de 28 anos, conhecida como “Diaba Loira”, teve
uma trajetória marcada por violência, crime e notoriedade nas redes sociais, em
que coleciona cerca de 70 mil seguidores. Na quinta-feira, ela foi encontrada
morta na Rua Cametá, em Cascadura, Zona Norte do Rio, enrolada em um lençol,
com marcas de tiros na cabeça e no tórax. A Delegacia de Homicídios da Capital
(DHC) investiga o caso. Antes disso, Eweline vivia uma rotina completamente
diferente: casada e mãe de dois filhos, exibia nas redes sociais momentos de
intimidade com a família, registros da gravidez e até fotos celebrando
conquistas e medalhas, sem uma tatuagem sequer no corpo.
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“Não me entrego viva, só saio
no caixão.” Essa frase, repetida em vídeos nas redes sociais, refletia o
desprezo de Eweline pelas ameaças de facções rivais. Após romper com o Comando
Vermelho (CV), ela teria se aliado ao Terceiro Comando Puro (TCP), tornando-se
alvo de conflitos dentro do submundo do tráfico carioca. Diaba Loira era
procurada pelo Setor de Inteligência da Polícia Militar de Santa Catarina e por
forças de segurança do Rio. Nas redes sociais, ostentava armamento pesado —
fuzis e pistolas — e exibia uma postura desafiadora.
Eweline Passos Rodrigues, de
28 anos, conhecida como “Diaba Loira”, teria rompido com o CV e se aliado ao
Terceiro Comando Puro (TCP). na foto, ela faz o sinal da facção. — Foto:
Reprodução
Vítima de tentativa de
feminicídio
Antes de mergulhar de vez no
mundo do crime, Eweline Passos Rodrigues trabalhou como cobradora interna e
alfaiate, com salários que variavam entre R$ 1.017 e R$ 1.346, e aparentemente,
levava uma rotina comum e uma vida profissional relativamente estável antes de
se envolver com o tráfico e as facções criminosas. No nome dela, também há uma
empresa voltada para promoção de vendas, registrada em Tubarão, sua cidade
natal, em Santa Catarina, com capital social de R$ 3 mil.
Segundo a Polícia Civil
catarinense, Diaba Loira vira traficante após sofrer uma tentativa de
feminicídio em 2022, em Capivari de Baixo, município de cerca de 24 mil
habitantes. Ela foi atacada com uma facada no pulmão pelo ex-companheiro
enquanto buscava o filho pequeno, precisando passar por cirurgia de emergência.
— A primeira vez que me
deparei com a Eweline foi quando ela foi vítima de uma tentativa de
feminicídio. O sujeito e a família alegavam que ela havia se apossado de uma
quantia em dinheiro dele — contou o delegado André Luiz Bermudez Pereira, da 5ª
DRP, em Tubarão.
O ex-marido trabalhava em
outro estado e relatou que, ao voltar a Santa Catarina, descobriu que Eweline o
traía e havia se apropriado do dinheiro que ele enviava para ser guardado.
Na época da tentativa de
feminicídio, a polícia constatou que a Diaba Loira já mantinha vínculos com
traficantes, embora não houvesse provas de participação direta no crime.
Após o ataque, a Polícia Civil
de SC passou a investigá-la por tráfico de drogas em Tubarão. Enquanto
aguardavam a expedição de um mandado de busca e apreensão, Eweline foi presa em
flagrante pela Polícia Militar em maio de 2023, por tráfico de drogas.
Em janeiro de 2024, veio a
segunda prisão. Já investigada por integrar uma organização criminosa, ela e um
comparsa, chamado Ruan Carlos dos Santos, foram detidos por porte ilegal de
arma de fogo, com provas de que se deslocavam para executar outro desafeto. Em
determinação judicial, Eweline Passos Rodrigues passou a ser monitorada por
tornozeleira eletrônica.
— A sequência dos elementos
deixava claro que ela fazia parte de uma facção catarinense e atuava também em
Florianópolis — afirmou Pereira.
Diaba Loira chegou a receber o
direito de responder em liberdade e foi solta, usando uma tornozeleira
eletrônica. No entanto, após Eweline romper duas vezes o monitoramento, o
delegado Pereira solicitou novamente sua prisão, e ela se tornou foragida da Justiça.
Ainda naquele ano, seu destino foi a capital fluminense, onde buscou abrigo em
redutos do Comando Vermelho no Rio: primeiro no Complexo do Alemão, na Zona
Norte, e depois na Gardênia Azul, na Zona Oeste.
— Nesse período, recebíamos
diversas fotos e vídeos dela portando fuzis nas favelas cariocas — contou
Pereira.
Já no Rio, ocorreu o
julgamento do ex-marido. A defesa explorou toda a ligação de Eweline com
facções criminosas e tráfico, e os jurados absolveram o acusado de tentativa de
feminicídio.
O apelido “Diaba Loira” surgiu
após sua chegada ao Rio, coincidindo com sua notoriedade nas redes sociais,
onde colecionava cerca de 70 mil seguidores e compartilhava vídeos portando
armas pesadas. Até pouco antes, era conhecida como “Pitbull”.
Em junho deste ano, voltou a
chamar atenção ao ser vista atirando contra policiais durante uma operação na
Gardênia Azul.
Do CV para o TCP
Em vídeos, a Diaba Loira já
deixava claro que havia migrado de facção e contava que não temia ser executada
por traficantes rivais por classificá-los como "despreparados".
"É para eu ter medo? Eu
estava do lado de vocês esse tempo todinho, sei que vocês são despreparados.
Então antes de falar que a 'equipe caos' vai te pegar, parem de querer ameaçar,
está chato já. Quem faz não fala", dizia em um dos vídeos.
Eweline Passos Rodrigues, de
28 anos. Conhecida como “Diaba Loira”, ela teria se envolvido com o Comando
Vermelho (CV) a partir de 2022, após sofrer tentativa de feminicídio, e, agora,
após um rompimento com a facção, teria se aliado ao Terceiro Comando Puro
(TCP). — Foto: Reprodução
Em julho, publicou um vídeo
lamentando a morte da mãe, afirmando que ela teria sido assassinada por
criminosos rivais do CV. Na realidade, a mãe está viva e chegou a se apresentar
na delegacia de Tubarão para esclarecer a suposta morte da filha.
"Vocês pegaram a minha
família, mataram a minha mãe. Vocês destruíram a única pessoa que eu tinha.
Acabaram com ela, mesmo sabendo que ela morava sozinha e quase não falava
comigo. Esses filhos da p*ta do Comando Vermelho sabiam", disse Diaba Loira
num vídeo publicado em julho deste ano.
Eweline também confirmou
publicamente sua aliança com o TCP, compartilhando conteúdo ligado à Tropa do
Coelhão, grupo do TCP no Complexo da Serrinha, em Madureira. Em postagens, ela
passou a compartilhar conteúdo ligado à Tropa do Coelhão, liderado pelo traficante
William Yvens Silva, grupo ligado ao TCP no Complexo da Serrinha, em Madureira,
Zona Norte do Rio, cujo chefe do tráfico é um dos criminosos mais procurado do
Rio, Wallace Brito Trindade, o Lacosta.
Entre os conteúdos
compartilhados, chama atenção uma tatuagem nas costas. O desenho mostra uma
mulher segurando um fuzil e fazendo o número três, em referência à facção
criminosa Terceiro Comando Puro (TCP). Além disso, a arte inclui a imagem de um
coelho e de um jacaré.
Tatuagem nas costas de Eweline
Passos Rodrigues, a Diaba Loira, de 28 anos. No desenho, uma mulher segura um
fuzil e faz o número três, em referência a facção criminosa Terceiro Comando
Puro (TCP) — Foto: Reprodução
Ela também apagou postagens
com referências à antiga facção.
Contra Eweline constam pelo
menos três mandados de prisão em aberto, sendo dois expedidos por tribunais de
Santa Catarina, por tráfico de drogas e organização criminosa: um pela Primeira
Vara Criminal da Comarca de Tubarão e outro pela Vara Única da Comarca de
Armazém, prisão definitiva decorrente de condenação transitada em julgado, com
pena restante de cinco anos e 10 meses em regime fechado, além de violação de
medidas judiciais por descumprir monitoramento eletrônico.
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