A articulação busca não só
estreitar laços econômicos, mas também atrair capital de conhecimento, com
investimentos em ciência, tecnologia e inovação
Antes mesmo do tarifaço
imposto pelos Estados Unidos ao Brasil, uma articulação interfederativa entre
municípios do Nordeste e a União já visava expandir as relações com a China. Na
última semana, a convite da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), os
prefeitos cearenses de Quixeramobim, Cirilo Pimenta (PSB), e do Crato, André
Barreto (PT), foram a Brasília tratar de uma viagem de 15 dias ao país
asiático, prevista para novembro.
A cooperação paradiplomática,
ou seja, que envolve entes menores da federação em tratativas internacionais,
busca não só estreitar laços econômicos, mas também atrair capital de
conhecimento, com investimentos em ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento
de cidades nos dois países.
É o que explica Milton Pomar,
consultor de relações institucionais China-Brasil, que participou do encontro e
apresentou oportunidades estratégicas de cooperação com o país asiático. As
tratativas devem envolver seminários nos municípios com o setor produtivo e
viagens de chineses ao Ceará e outros estados nordestinos.
“(A gente busca) identificar
as potencialidades de cada município em turismo, artesanato, indústria,
produtos agropecuários, mineração, energia, que possam interessar empresas da
China, e vice-versa. A partir dessas informações, a gente tenta identificar
cidades que tenham complementaridade na China e que possam realmente contribuir
para uma cooperação”, explicou Milton.
Cirilo Pimenta, de
Quixeramobim, já pretendia cruzar o mundo em outubro para tratar de negócios,
mas a articulação da SRI o motivou a estabelecer contato com os asiáticos de
maneira integrada a outros entes municipais.
O objetivo, segundo ele, é
estreitar relações comerciais sobre itens basilares da economia desses entes –
como gêneros alimentícios derivados de ovinos e caprinos – e intensificar a
presença chinesa no Ceará para a exploração de minérios como o lítio, essencial
para as indústrias de eletrônicos e de automóveis.
“Hoje já tem um bocado de
chinês na região. A gente tem lítio, granito, calcário, pedras semipreciosas. A
região toda tem”, disse ao PontoPoder.
Quixeramobim fica no Sertão
Central do Ceará, que abriga, ainda, cidades como Quixadá e Solonópole,
apontadas como grandes reservas do mineral estratégico. “A Prefeitura tem
disponibilizado geólogos para fazer pesquisas para saber a concentração de
minérios nessa região”, complementa Cirilo Pimenta.
O Cariri também foi
representado na reunião por André Barreto, prefeito do Crato. “O Governo Lula
assinou vários acordos com os chineses, e eles estão querendo fazer com que
essas oportunidades cheguem aos municípios porque normalmente (as negociações)
ficam entre o Governo Federal e Estadual”, comentou.
O prefeito de Itapipoca,
Felipe Pinheiro (PT), também foi convidado, mas não pôde ir. Quem o substituiu
foi o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Turismo,
Ellison Madeira. Ele reforçou os objetivos da articulação. “O nosso município
vai preparar um portfólio institucional, definindo setores e oportunidades e
articulando com os parceiros e atores econômicos locais”, explicou.
O encontro foi coordenado pelo
cearense Ilário Marques, assessor especial de Assuntos Federativos do Planalto.
Uma nova reunião deve ser realizada em breve para dar seguimento ao
planejamento. O PontoPoder buscou a Secretaria de Relações
Institucionais para mais detalhes, mas não houve retorno.
Intercâmbio
Essa aproximação não é
novidade, nem a participação de municípios no debate. A China é, há cerca de 15
anos, o principal parceiro comercial do Brasil, e mantém vários acordos com o
Ceará, sendo o 5º maior destino de exportações do Estado.
Além disso, algumas
localidades mantêm títulos de cidades-irmãs com entes públicos chineses. Por
exemplo, Fortaleza estabelece essa relação com Xiamen, que abriga similaridades
em requisitos como porte populacional e perfil econômico.
Em novembro de 2024, o
presidente Xi Jinping esteve no Brasil e alinhou a estratégia de ambos os
países na Iniciativa do Cinturão e Rota, a “Nova Rota da Seda”. Entre outros
pontos, a negociação ampliou as possibilidades de desenvolvimento do Ceará nos
campos da energia verde, infraestrutura, capacitação em tecnologia médica e
intercâmbio cultural e educacional.
Um exemplo de cooperação neste
caso é a participação de mais de 650 professores de Matemática do Ceará em um
programa de intercâmbio online organizado pelo Escritório de Assuntos
Exteriores do Governo Municipal de Xiamen, na província de Fujian, e pela Universidade
de Huaqiao.
De modo geral, após queda
durante o Governo Bolsonaro (2019-2022), os investimentos chineses confirmados
no Brasil totalizaram US$ 1,73 bilhão em 2023, representando um aumento de 33%
em relação ao ano anterior.
Os dados são da publicação
“Investimentos chineses no Brasil: novas tendências em energias verdes e
parcerias sustentáveis”, divulgada no passado pelo Conselho Empresarial
Brasil-China.
A área de eletricidade e o
setor automotivo lideraram a atração de capital chinês em 2023, respondendo por
39% e 33% do valor total (US$ 668 milhões), respectivamente. Desde 2021, todos
os projetos do país asiático relacionados a automóveis no Brasil foram
direcionados a veículos 100% elétricos ou híbridos, impulsionados por empresas
como GWM e BYD.
Atrás de São Paulo, Minas
Gerais e Goiás – juntos, representam 78% –, o Ceará absorveu, ao todo, 6% dos
empreendimentos chineses naquele ano.
Organizando o mercado interno
Como andamento do encontro em
Brasília, o prefeito do Crato deve abrir a discussão com empresários da região
nesta semana. Representantes da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e
secretários municipais vão debater que tipos de negócios podem prospectar na
viagem.
“Alguns setores se destacam,
têm vertente para exportação. Queremos ver a possibilidade de trazer
investimentos para o município e para a região também, promover exportação e
recursos para investir em cadeias bem estabelecidas ou em novos empreendimentos”,
informou ao PontoPoder, sem detalhar quais seriam as novidades.
“É um novo mercado que se
abre”, segundo Barreto. “Vamos apresentar o município e a região aos chineses
para que eles possam vir pesquisar que outros negócios podem desenvolver aqui”,
projeta.
A tendência é que essas
negociações se intensifiquem daqui para frente com a conclusão da
Transnordestina e a estruturação de outros pontos estratégicos pelo Estado,
como o Porto Seco de Quixeramobim e o Polo Automotivo de Horizonte.
Fonte: Ingrid Campos - Diário do Nordeste.
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