Lorena Rodríguez, 37, tinha depressão desde a adolescência. — Foto: Arquivo Pessoal
Procedimento que implantou quatro eletrodos em diferentes áreas do cérebro é inédito no tratamento de depressão resistente a outros métodos.
Lorena Rodríguez, 37 anos,
viveu mais de duas décadas entre crises de ansiedade e episódios depressivos.
Depois de tentar inúmeros tratamentos sem sucesso duradouro, ela se tornou a
primeira pessoa no mundo a passar por uma cirurgia de estimulação cerebral
profunda com quatro eletrodos para reverter a depressão resistente. O
procedimento foi realizado em abril, em Bogotá, pelo neurocirurgião colombiano
William Contreras.
Administradora de empresas e
mestre em marketing e gestão comercial, Lorena relata ao g1 que os primeiros
sinais surgiram ainda na adolescência. “Era como viver por obrigação, no piloto
automático. Sentia tristeza, vazio e uma ansiedade que não passava. Mesmo em
momentos que deveriam ser felizes, eu não conseguia estar presente”, conta.
Com o tempo, vieram as
enxaquecas e a dificuldade para executar tarefas simples, como levantar da
cama. “Entendi que não era uma fase, mas uma condição clínica. Meu próprio
cérebro parecia me trair.”
Resistência aos tratamentos
O diagnóstico foi de
transtorno misto de ansiedade e depressão, resistente a terapias convencionais.
Lorena fez uso de mais de cinco tipos de antidepressivos, ansiolíticos e
estabilizadores do humor; passou por psicoterapias diversas, meditação,
medicina funcional, mudanças de país e práticas espirituais. Alguns métodos
trouxeram alívio temporário, mas a melhora nunca se sustentou.
Lorena e o médico, William
Contreras, falaram com exclusividade ao g1. Segundo o neurocirurgião, é para
casos como o dela, em que métodos convencionais já foram testados e falharam,
que a estimulação cerebral profunda (DBS) é indicada.
“Quando todos os tratamentos
convencionais falham, a DBS oferece modulação contínua e reversível dos
circuitos cerebrais ligados ao humor e à motivação. O objetivo é ajustar a
atividade elétrica dessas áreas para aliviar os sintomas”, explica Contreras.
Lorena Rodríguez foi operada
no Hospital Internacional da Colômbia — Foto: Divulgação/Willam Contreras
Como é a cirurgia
A possibilidade de cirurgia
surgiu por acaso. Lorena conheceu o trabalho de Contreras ao acompanhar a
sobrinha em uma consulta com o neurocirurgião. Ao saber que ele também operava
casos de transtornos do humor, escreveu para o médico em dezembro de 2024 e
relatou seu caso.
A cirurgia consiste na
implantação de eletrodos no área subgenual do córtex cingulado (SCG25) — uma
região associada à tristeza profunda — e no braço anterior da cápsula interna,
uma via que conecta áreas do pensamento racional a estruturas emocionais, como
o núcleo accumbens.
“Usamos quatro eletrodos —
dois por hemisfério — para atingir simultaneamente essas regiões. É a primeira
vez no mundo que essa abordagem multitarget, direcionada a múltiplos alvos, é
feita para depressão resistente”, diz.
Até a cirurgia de Lorena, não
havia nenhuma publicação científica relatando procedimentos similares.
Como funciona a estimulação
cerebral profunda (DBS)?
O procedimento começa com um
mapeamento detalhado do cérebro, feito por exames de ressonância magnética e
uma técnica chamada tractografia, que mostra como as fibras nervosas se
conectam. A partir dessas imagens, os médicos identificam os pontos exatos onde
será feita a estimulação.
Em seguida, são implantados
eletrodos — fios muito finos — com precisão de milímetros em áreas profundas do
cérebro. Esses eletrodos são ligados a um neuroestimulador, um pequeno aparelho
colocado no tórax, que envia impulsos elétricos constantes para “regular” a
atividade dos circuitos cerebrais.
Os resultados variam: entre
40% e 60% dos pacientes apresentam melhora significativa dos sintomas, e de 20%
a 30% chegam a uma remissão duradoura, ou seja, ficam sem sinais da doença por
longos períodos.
Sintomas foram base do
procedimento
Lorena sabia que seria um
procedimento invasivo, durante boa parte do qual precisaria ficar acordada para
que os cirurgiões testassem estímulos. “Tinha medo, mas se não tentasse,
estaria traindo a parte de mim que ainda acreditava na vida. Entrei no centro
cirúrgico com medo, mas também com fé”, lembra.
A operação, realizada no
Hospital Internacional da Colômbia, foi guiada por ressonância magnética de
alta resolução e mapeamento das conexões cerebrais.
“A novidade no caso da Lorena
é que realizamos uma cirurgia baseada diretamente nos sintomas. A condição dela
incluía vários circuitos cerebrais: ruminação, culpa, ansiedade e tristeza —
cada um envolvendo redes diferentes. Um único eletrodo por hemisfério – que é o
padrão para esse tipo de cirurgia – seria insuficiente”, explica Contreras.
“Por isso, usamos quatro
pequenos sensores que medem a atividade elétrica do cérebro e analisam como as
áreas se conectam entre si. Assim, conseguimos ajustar a estimulação de forma
personalizada para cada região envolvida.”
“No dia seguinte à cirurgia,
ela me disse que sentia como se tivesse tirado um peso do peito.”
Recuperação e primeiros
resultados
Nos primeiros dias, Lorena
sentiu dores de cabeça e cansaço, mas também percebeu mudanças. “É como voltar
a ver a luz, como se a luz estivesse entrando por frestas que antes estavam
fechadas”, afirma. Os ajustes no neuroestimulador, ela e o médico afirmam, têm
proporcionado momentos inéditos de estabilidade.
Operada há quatro meses,
Lorena relata pequenas, mas profundas mudanças.
“Voltei a fazer planos sem
medo. Ainda sou eu, mas agora tenho espaço para viver, não só resistir.”
Para Contreras, casos como o
dela são um marco para a medicina latino-americana. “Mostram que temos
capacidade científica e tecnológica para oferecer tratamentos de ponta sem que
o paciente precise ir para fora do continente.”
Para Lorena, a cirurgia não
trouxe apenas um recurso médico, mas um renascimento. “Escolhi a vida mais uma
vez — e, desta vez, com esperança real.”
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