.Foto: Ilustrativa
A Polícia Civil apura o caso,
classificado como crime contra a dignidade sexual. O gestor solicitou o
afastamento do cargo após as acusações.
O dirigente da Autarquia
Municipal de Trânsito (AMT) de Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza,
virou alvo de uma investigação da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE). A
abertura do inquérito ocorreu depois que uma engenheira do órgão formalizou uma
denúncia de abusos sexuais contra ele.
A imprenssa da capital entrevistou a profissional lesada e com outras funcionárias da autarquia. Os relatos
indicam que o gestor adota um padrão de comportamento abusivo semelhante com
várias subordinadas.
O caso passou a ser tratado na
esfera policial após meses de investidas importunas disfarçadas de comentários
casuais. Segundo a engenheira, o assédio escalou para intimidações físicas e
psicológicas.
"Ele tocava nas minhas
pernas e braços sem que eu permitisse. Fazia convites para sairmos, propunha
viagens e insistia para que eu enviasse fotografias em trajes de banho. Ele
chegava a apontar o telemóvel na minha direção dizendo que eu estava atraente e
que registaria uma foto", revelou a vítima.
Visando resguardar o andamento
das investigações e a segurança das envolvidas, as identidades das funcionárias
e o nome do suspeito não serão divulgadas nesta reportagem. Procurado pela
equipe de jornalismo, o gestor rejeitou as acusações e informou ter pedido a
sua exoneração para permitir que a apuração dos factos ocorra de forma isenta
pelas autoridades.
Investigação policial e
medidas de proteção
Em comunicado oficial, a PCCE
esclareceu que já iniciou as diligências e as tomadas de depoimentos para
elucidar toda a dinâmica do ocorrido. O procedimento está centralizado na
Delegacia de Polícia Civil de Eusébio.
A Prefeitura de Eusébio também
se manifestou, confirmando que teve ciência das alegações. De acordo com a
administração municipal, o próprio titular solicitou o desligamento das suas
funções antes que qualquer sanção administrativa fosse aplicada, com o intuito
de focar na sua defesa jurídica. O governo local sublinhou o seu repúdio a
qualquer forma de violência de género e garantiu que o caso terá o devido
acompanhamento legal, respeitando o contraditório.
Apesar da nota da Prefeitura,
a equipe de reportagem apurou que o gestor ainda foi visto a exercer atividades
na sede do órgão horas após o comunicado.
Atualmente, a engenheira conta
com o amparo de uma medida protetiva de urgência emitida pelo Poder Judiciário.
A determinação judicial proíbe o investigado de se aproximar ou contactar —
seja por meios físicos ou digitais — a vítima, os seus familiares e as
testemunhas. Ele está também impedido de frequentar os locais habituais da
engenheira e proibido de divulgar qualquer tipo de conteúdo que possa expô-la
ou constrangê-la.
Relatos de perseguição e
adoecimento
A engenheira, que desempenha
funções na AMT há cerca de um ano, relatou que as abordagens começaram com
avaliações constantes sobre a sua aparência física, vestuário e corpo.
"Com o passar do tempo,
as observações evoluíram para piadas desconfortáveis. Ele afirmava que queria
guardar fotos minhas para observar durante o fim de semana. Mesmo respondendo
sempre com seriedade e impondo limites, a situação agravou-se. Ele sugeria
passeios de moto e propunha viagens longas", contou.
As investidas teriam tido
início no final de 2025. O impacto psicológico foi tão severo que a
profissional precisou de duas licenças médicas para tratar da sua saúde mental.
Em determinado momento, as agressões tornaram-se físicas, com o suspeito a
segurá-la pelo pescoço.
A decisão de procurar a
polícia foi tomada quando o assédio transformou-se em perseguição aberta dentro
do ambiente de trabalho. Diante das rejeições, o gestor passou a desqualificar
o rendimento profissional da engenheira, humilhando-a publicamente em reuniões.
Posteriormente, a vigilância estendeu-se para a sua vida privada.
"Ele começou a
monitorizar os meus passos com viaturas. O estopim para a denúncia foi ver uma
pessoa a filmar-me dentro do carro enquanto eu estava com o meu filho. Fiquei
em pânico ao perceber o nível de perseguição", desabafou a engenheira, acrescentando
que teme pela sua integridade física dada a influência do acusado.
Outras colaboradoras relatam o
mesmo comportamento
O padrão abusivo foi
confirmado por outras mulheres vinculadas à instituição. Uma funcionária
relatou que percebeu uma rotatividade invulgar de mulheres na autarquia assim
que foi admitida.
"Não demorou muito para
que ele fizesse comentários impróprios sobre o meu corpo ou questionasse
detalhes da minha vida íntima nos fins de semana. Ele chegou a criticar o meu
peso e questionou o meu casamento após ouvir uma chamada telefónica minha",
afirmou.
Uma antiga prestadora de
serviços da AMT, que trabalhou com o suspeito por quatro anos, corroborou o
cenário, descrevendo telefonemas em horários noturnos abusivos e retaliações
profissionais imediatas após a imposição de limites. "Quando recusava os
convites, ele iniciava campanhas de difamação interna e colocava pessoas para
vigiar as minhas rotinas", concluiu.
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