Uma década após enfrentar uma das piores secas de sua história, o Ceará chega mais preparado para lidar com um novo cenário de estiagem prolongada. O fortalecimento da infraestrutura hídrica, a ampliação do monitoramento climático e a adoção de políticas públicas voltadas para a convivência com o semiárido colocam o Estado em uma posição mais resiliente diante da possibilidade de um novo "Super El Niño".
Segundo projeções climáticas, existe 81% de probabilidade de que o fenômeno se intensifique a partir de outubro, podendo figurar entre os mais fortes registrados nos últimos 50 anos. Embora o El Niño seja um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, especialistas alertam que seus impactos tendem a ser potencializados pelo aquecimento global, aumentando o risco de redução das chuvas, ondas de calor e agravamento da escassez hídrica.
De acordo com o diretor técnico da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Francisco Vasconcelos Júnior, desde a última grande seca, encerrada em 2016, o Ceará fortaleceu significativamente sua capacidade de monitoramento climático e gestão dos recursos hídricos.
O Estado passou a investir em tecnologia, previsão climática sazonal e acompanhamento das temperaturas dos oceanos Atlântico e Pacífico, utilizando essas informações para orientar decisões relacionadas à agricultura, abastecimento de água e ações preventivas.
Além do monitoramento, a gestão hídrica também amadureceu, permitindo antecipar cenários de risco e reduzir impactos sobre a população e os setores produtivos.
Obras estruturantes fortalecem segurança hídrica
Durante a última grande estiagem, o Ceará intensificou medidas emergenciais como perfuração de poços, instalação de dessalinizadores, construção de cisternas, implantação de adutoras de montagem rápida e sistemas alternativos de captação de água.
Segundo o secretário estadual dos Recursos Hídricos, Ramon Rodrigues, a estratégia foi diversificar ao máximo a matriz hídrica para garantir o abastecimento da população.
Entre as principais obras estruturantes atualmente em execução está a duplicação do Eixão das Águas, investimento de aproximadamente R$ 1,2 bilhão, financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A obra permitirá dobrar a capacidade de transferência de água do sistema, passando de 11 para 22 metros cúbicos por segundo, beneficiando a Região Metropolitana de Fortaleza, polos industriais e áreas irrigadas.
Outra aposta é o Cinturão das Águas do Ceará (CAC), que recebe águas da Transposição do Rio São Francisco e levará abastecimento ao Cariri. Com cerca de 92% das obras concluídas, o sistema atenderá municípios como Juazeiro do Norte, Crato, Barbalha, Caririaçu, Farias Brito, Nova Olinda e Santana do Cariri.
O governo estadual também avança com o programa Malha D'Água, que prevê a implantação de sistemas adutores para levar água tratada a municípios e distritos mais distantes dos grandes reservatórios, reduzindo gradativamente a dependência dos caminhões-pipa.
Poços, dessalinizadores e cisternas seguem fundamentais
Mesmo com as grandes obras, tecnologias de convivência com o semiárido continuam sendo consideradas essenciais.
Entre 2015 e 2019, foram perfurados cerca de 6.820 poços pela Superintendência de Obras Hidráulicas (Sohidra), número que representa mais da metade de todos os poços construídos pelo órgão desde sua criação.
Para tornar a água subterrânea própria para consumo, foram instalados 252 dessalinizadores em 44 municípios cearenses, dentro do Programa Água Doce, com investimento aproximado de R$ 54 milhões.
As cisternas também desempenharam papel decisivo. Entre 2012 e 2017, foram construídas mais de 152 mil cisternas em áreas rurais do Ceará. Após redução dos investimentos nos anos seguintes, o programa voltou a ser ampliado a partir de 2023.
Agricultura mais preparada para enfrentar estiagens
Especialistas avaliam que a agricultura familiar também está mais preparada para enfrentar períodos prolongados de seca.
Nos últimos anos foram difundidas técnicas como barragens subterrâneas, plantio em curvas de nível, mandalas agrícolas, cordões de pedra e sistemas mais eficientes de irrigação.
Também houve incentivo ao cultivo de espécies mais resistentes ao clima semiárido, como palma forrageira e sorgo, além do fortalecimento do programa Hora de Plantar, que fornece sementes aos produtores rurais e reduz prejuízos em anos de baixa produtividade.
Apesar dos avanços, técnicos defendem ampliação da assistência técnica e aumento dos investimentos para ampliar a capacidade de adaptação dos agricultores familiares.
Desafios permanecem
Embora o Estado tenha avançado na infraestrutura hídrica, especialistas alertam que algumas regiões continuam vulneráveis ao desabastecimento.
Os Sertões de Crateús seguem entre as áreas mais críticas devido à baixa capacidade de armazenamento de água. Municípios como Icó, Jaguaribe, Jaguaretama, Canindé e Quixadá também aparecem entre as localidades que podem enfrentar dificuldades caso um novo "Super El Niño" provoque redução significativa das chuvas.
Especialistas ressaltam que o enfrentamento da escassez hídrica precisa ser tratado como uma política permanente de Estado, independentemente da intensidade do fenômeno climático, reforçando ações de convivência com o semiárido e investimentos contínuos em infraestrutura e gestão dos recursos hídricos.
Créditos: Diário do Nordeste
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