PF investiga esquema que teria enviado cocaína ao exterior escondida em perucas, vinhos e equipamentos

 

Foto: Reprodução / 19 inquéritos apuram possível organização criminosa ligada a empresas de exportação; investigações apontam apreensões de drogas em cargas destinadas principalmente à África e à Ásia

A Polícia Federal investiga um esquema de tráfico internacional de drogas que teria utilizado o Terminal de Cargas do Aeroporto Internacional de Fortaleza para enviar cocaína ao exterior escondida em mercadorias aparentemente comuns.


Ao todo, 19 inquéritos apuram possíveis conexões entre o tráfico e empresas transportadoras e exportadoras. Entre os produtos usados para ocultar a droga estão perucas, cilindros metálicos, furadeiras, cadeiras odontológicas, bolsas, latas de achocolatado, açaí, amortecedores e garrafas de vinho.


As investigações indicam que os principais destinos das cargas eram países da África e da Ásia, especialmente Cabo Verde e Moçambique.


Cocaína escondida em perucas

Uma das apreensões que chamou a atenção dos investigadores ocorreu em abril de 2023, no Terminal de Cargas do Aeroporto de Fortaleza.


A carga continha 550,57 gramas de cocaína escondidos em perucas, também conhecidas como laces. A encomenda incluía ainda duas caixas com 148 pares de chinelos.


Segundo os documentos da investigação, a droga era colocada sob os tufos de cabelo sintético das tranças. Os pacotes tinham formato alongado e eram confeccionados com papel carbono e fita adesiva transparente.


O papel carbono é utilizado pelo tráfico em algumas situações como tentativa de dificultar a identificação da droga em equipamentos de inspeção por raio-X.


A carga teria sido despachada pela empresa Unique Brazil, com destino a Praia, em Cabo Verde.


Empresa aparece em 14 inquéritos

Segundo a investigação, 14 dos 19 inquéritos estão relacionados à empresa Unique, que possui sede na Avenida Carneiro de Mendonça, em Fortaleza, e se apresenta como empresa de importação e exportação.


Os documentos apontam que as cargas investigadas tinham como destino principalmente países africanos e asiáticos.


Boa parte dos casos já chegou ao Ministério Público Federal (MPF).


Além das apreensões realizadas, documentos da PF e do MPF indicam a existência de indícios de que algumas remessas possam ter chegado ao destino sem serem interceptadas.


Vinho estava entre as cargas investigadas

A apreensão mais recente mencionada nos autos ocorreu em 15 de novembro de 2025.


Na ocasião, agentes da Polícia Federal encontraram 3,60 quilos de cocaína escondidos em 17 garrafas de vinho branco da marca Collina.


As garrafas faziam parte de uma carga maior, composta por 180 garrafas de 750 mililitros.


O caso foi posteriormente relacionado pelo MPF a outros inquéritos que investigam o mesmo possível esquema.


Em manifestação, o órgão apontou conexão entre o caso do vinho e pelo menos outros 17 inquéritos, destacando também indícios da atuação de uma possível organização criminosa.


O MPF defende que as investigações sejam reunidas em uma única Vara Federal, diante das semelhanças entre os casos.




Cargas tinham diferentes formas de ocultação


Entre as principais apreensões relacionadas às investigações estão:

  • 87 kg de cocaína escondidos em cilindros metálicos, com destino a Serra Leoa, em 2018;
  • 65,65 kg encontrados dentro de furadeiras destinadas a Cabo Verde, em 2021;
  • 32,1 kg escondidos em prumos de nível com destino a Moçambique, em 2021;
  • 20,13 kg encontrados em bolsas destinadas à Costa do Marfim, em 2023;
  • 15 kg em latas de achocolatado com destino a Cabo Verde, em 2024;
  • 11,1 kg escondidos em amortecedores destinados a Cabo Verde, em 2022;
  • 11 kg ocultos em uma carga de açaí destinada a Bangkok, na Tailândia, em 2021;
  • 10,7 kg encontrados em tubos de adesivo e silicone destinados a Moçambique, em 2019;
  • 10,3 kg escondidos em uma cadeira odontológica destinada a Cabo Verde, em 2022.


Os casos ocorreram entre 2018 e 2025, com exceção de 2020, segundo os documentos da investigação.


PF aponta possível atuação contínua

Em uma das manifestações anexadas ao processo, a Polícia Federal afirmou que os casos não seriam episódios isolados.


Segundo a corporação, as investigações apresentam características semelhantes, como a utilização de cargas lícitas para ocultar cocaína e a concentração dos destinos nos continentes africano e asiático.


A PF também apontou que alguns dos inquéritos, embora estejam em diferentes estágios, possuem informações que se complementam.


A corporação classificou o possível grupo como uma organização criminosa especializada na logística do tráfico internacional de drogas por meio de terminais de carga de aeroportos brasileiros, especialmente o de Fortaleza.


Conversas por WhatsApp são analisadas

As investigações também apontam que parte das negociações das cargas teria ocorrido por meio do WhatsApp.


Um homem que se apresentou à Polícia Federal como gerente de exportação afirmou que os clientes estrangeiros com quem mantinha contato seriam os responsáveis pela contratação das cargas que posteriormente foram apreendidas com drogas.


Segundo os autos, esse homem também relatou ter recebido ameaças contra ele e familiares de uma pessoa que estaria relacionada à droga apreendida.


A pessoa teria exigido a devolução do entorpecente ou do valor correspondente.


O gerente colaborou com a investigação e entregou o telefone celular à PF para que fossem analisadas conversas mantidas com os supostos contratantes.


Investigação também acompanha movimentações financeiras

A apuração financeira também passou a fazer parte do caso.


Relatórios de Inteligência Financeira elaborados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificaram movimentações consideradas suspeitas.


Um dos investigados, registrado formalmente como auxiliar de escritório, movimentou mais de R$ 1,6 milhão em uma conta no Banco do Brasil entre 2021 e 2022.


Foram R$ 804.431,75 em créditos e R$ 796.402,08 em débitos.


A perícia financeira da Polícia Federal apontou que a conta teria funcionado como uma espécie de “conta de passagem” para recursos considerados ilícitos pela investigação.


Entre os responsáveis por depósitos identificados estava um cidadão estrangeiro que, segundo os autos, possui condenação anterior por tráfico internacional de drogas em 2017, na Justiça de Mato Grosso do Sul.


Investigações ainda estão em andamento

Os processos ainda estão em diferentes fases e alguns dependem de decisões judiciais para que sejam reunidos em uma única investigação.


Os nomes dos investigados não foram divulgados porque, conforme as informações disponíveis nos autos, eles ainda não estão formalmente na condição de indiciados, denunciados ou réus.


As investigações buscam esclarecer a participação de empresas, pessoas e possíveis integrantes da organização criminosa, além de identificar quais cargas efetivamente chegaram ao exterior e a dimensão da estrutura utilizada para o tráfico internacional.

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