Se a pergunta for qual é o ponto mais alto do Ceará, muita gente provavelmente responderá Pico Alto, em Guaramiranga. Mas, de acordo com os dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o título pertence ao Pico da Serra Branca, localizado no município de Catunda, no Sertão dos Crateús.
O ponto culminante do Estado possui 1.130 metros acima do nível do mar, segundo o IBGE. A Prefeitura de Catunda, por sua vez, informa uma altitude de 1.154 metros. Mesmo considerando a diferença entre as medições, o Pico da Serra Branca permanece acima do Pico Alto, que tem 1.112 metros de altitude de acordo com o órgão estatístico.
A formação faz parte da Serra das Matas, uma região de grande importância geológica e paisagística. No topo existe um monólito, estrutura formada por uma única rocha, marcado por uma cruz e que funciona como um mirante natural para quem consegue chegar ao cume.
Localizado a aproximadamente 293 quilômetros de Fortaleza, o Pico da Serra Branca passou a ser reconhecido como o ponto mais elevado do Ceará a partir do avanço das técnicas de medição topográfica. Segundo o professor e pesquisador de Geografia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Frederico de Holanda Bastos, durante muito tempo o Pico Alto foi considerado o ponto culminante do Estado.
“Antigamente, acreditava-se [que o ponto culminante] era o Pico Alto. Mas, com o avanço da topografia, dos dados de topografia global, chegaram à identificação de que o Pico da Serra Branca é um pouco mais alto”, explica o pesquisador.
Apesar de ser o ponto mais alto do Ceará, o Pico da Serra Branca não ocupa a mesma posição quando a comparação é feita com os demais estados nordestinos. O Pico do Barbado, na Bahia, chega a 2.033,3 metros e é o ponto de maior altitude da região. No Brasil, o recorde pertence ao Pico da Neblina, no Amazonas, com 2.995,3 metros.
Mirante natural no topo da Serra das Matas
Quem alcança o cume do Pico da Serra Branca encontra uma paisagem marcada pela vegetação da Caatinga e pela formação rochosa. O monólito existente no alto permite observar áreas da zona rural de Catunda e também a região urbana do município vizinho, Monsenhor Tabosa.
O ouvidor municipal Marlon Farias, natural de Catunda e frequentador do local, descreve a experiência como uma oportunidade de observar a região a partir de um ponto privilegiado.
“Você se sente realmente nas nuvens. É um visual incrível, único. Você vê realmente que aquele ponto é bem elevado”, relata.
A formação também chama atenção pelo potencial ecológico e geológico. Segundo o pesquisador Frederico de Holanda Bastos, a Serra das Matas é um maciço residual granítico, formado por rochas muito antigas e moldado ao longo do tempo pela ação da erosão.
De acordo com o especialista, a formação tem origem relacionada a grandes eventos tectônicos ocorridos no final do período Pré-Cambriano, durante o Neoproterozoico, quando houve o encontro de grandes placas tectônicas.
O pesquisador avalia que a área possui potencial para o geoturismo, especialmente pela presença das formações graníticas que podem produzir diferentes formas de relevo.
“Quixadá tem um relevo granítico muito conhecido. Então tem uma série de microformas graníticas que acabam sendo atrativos turísticos, mas não chegamos a inventariar se existe essa grande quantidade na Serra das Matas. Mas o granito, por si só, já tem esse potencial”, explica Frederico.
Acesso exige caminhada e escalada
O Pico da Serra Branca pode ser acessado por dois caminhos, partindo de Catunda ou de Monsenhor Tabosa. Para quem utiliza a segunda opção, o trajeto segue por aproximadamente nove quilômetros até o distrito de Serra Branca, na zona rural de Catunda.
A partir desse ponto, o restante do percurso precisa ser feito a pé. A caminhada tem aproximadamente um quilômetro e pode durar entre 20 e 30 minutos, passando por áreas de vegetação rasteira e trechos de mata mais fechada.
Nos metros finais, o percurso fica mais difícil, já que é necessário passar por trechos de rocha e realizar uma espécie de escalada para alcançar o monólito.
O agente de saúde Pedro Magalhães, que já visitou o local, alerta que a ausência de infraestrutura torna o acesso mais exigente.
“A parte de terra vai numa crescente suportável. Agora, quando chega pedra mesmo, que você tem que fazer a escalada, aí é um paredão. Idosos não conseguem fazer isso tranquilamente”, afirma.
A descida também exige atenção. Não há escadas, passarelas ou estruturas de contenção que facilitem o percurso. Uma corda chegou a ser instalada recentemente para auxiliar os visitantes na subida do monólito.
Por esse motivo, moradores da região recomendam que a visita seja feita com calçados fechados e roupas confortáveis. Como o vento costuma ser forte no topo, também é indicado levar um casaco, principalmente em períodos de temperaturas mais baixas.
Outra orientação é levar água e alimentos, já que não existem estruturas comerciais no local. Os visitantes também são aconselhados a contar com o acompanhamento de um guia, embora os municípios de Catunda e Monsenhor Tabosa não disponham atualmente de um serviço oficial de guias para o ponto turístico.
A Prefeitura de Catunda informou que trabalha na elaboração de um projeto para melhorar o acesso, a sinalização e a estrada que leva até a formação, além de estudar ações de valorização cultural e turística do Pico da Serra Branca.
Paisagem muda ao longo do ano
A paisagem encontrada no Pico da Serra Branca também apresenta diferenças significativas em relação ao Pico Alto, em Guaramiranga. Enquanto o Maciço de Baturité possui áreas remanescentes de Mata Atlântica e mantém uma vegetação mais verde durante boa parte do ano, a Serra das Matas é marcada pela Caatinga e pela mata seca.
Durante a estação chuvosa, a vegetação ganha tons mais verdes e fica mais densa. Já no período seco, o cenário muda e assume uma aparência mais esbranquiçada.
A diferença está relacionada, entre outros fatores, à distância da Serra das Matas em relação ao litoral. Segundo Frederico de Holanda Bastos, a região recebe menos influência da umidade trazida pelos ventos oceânicos.
“Essa questão da altitude do relevo não justifica a umidade, por exemplo, que a gente vê no Maciço de Baturité. Pelo fato de ser mais alto, a temperatura é um pouco menor, mas, do ponto de vista pluviométrico, não tem aqueles totais tão elevados como se constata, por exemplo, em Baturité, Aratanha e Maranguape, que são maciços pré-litorâneos. Então, é uma serra seca ou, pelo menos, subúmida”, explica o pesquisador.
Segundo Pedro Magalhães, durante o período chuvoso o topo pode ficar encoberto por nuvens, reduzindo a visibilidade e deixando a temperatura mais baixa. Na estação seca, por outro lado, a paisagem costuma ficar mais aberta.
Para quem pretende conhecer o ponto mais alto do Ceará, a recomendação é planejar o trajeto com antecedência, levar água, utilizar roupas adequadas e evitar realizar a trilha sozinho, principalmente por causa dos trechos de escalada e da falta de infraestrutura no percurso.
Postar um comentário