Do ciclo observado pelos babilônios aos computadores modernos, cálculos astronômicos permitem determinar quando e onde os eclipses poderão ser vistos
O eclipse solar total da última quarta-feira (12) já terminou, mas uma pergunta permanece: quando será o próximo? A resposta pode ser conhecida com décadas ou até séculos de antecedência, graças a milhares de anos de observações e ao desenvolvimento da astronomia.
Antes mesmo de a sombra da Lua atingir determinada região da Terra, astrônomos conseguem calcular a data, o horário e o trajeto de um eclipse com grande precisão.
Previsões começaram na Mesopotâmia
As primeiras previsões de eclipses têm origem na Mesopotâmia. Durante séculos, astrônomos babilônios registraram sistematicamente esses fenômenos e perceberam que determinados padrões se repetiam após intervalos de aproximadamente 18 anos e 11 dias, equivalentes a 223 meses lunares.
Esse intervalo ficou conhecido posteriormente como ciclo de Saros.
O nome, porém, surgiu de uma confusão histórica. Em 1691, o astrônomo inglês Edmond Halley encontrou em um léxico bizantino a palavra grega saros, relacionada ao termo babilônio sar, que representava o número 3.600. A palavra não tinha relação originalmente com eclipses, mas Halley aplicou o termo ao ciclo e a denominação acabou sendo incorporada à astronomia.
Civilizações como a chinesa também mantiveram registros antigos de eclipses. Esses conhecimentos permitiam prever a ocorrência dos fenômenos, mas ainda havia uma grande dificuldade: saber exatamente onde o eclipse seria observado.
Por que eclipses solares são mais difíceis de prever no mapa?
A diferença está na forma como as sombras são projetadas.
No eclipse lunar, a Terra fica entre o Sol e a Lua e projeta sua sombra sobre o satélite. O fenômeno pode ser observado simultaneamente de grande parte do lado noturno do planeta, desde que a Lua esteja acima do horizonte.
No eclipse solar, a situação é diferente. A sombra da Lua atinge apenas uma faixa relativamente estreita da superfície terrestre. Para determinar seu caminho, é necessário conhecer com enorme precisão as posições da Lua e da Terra.
Foi justamente esse cálculo que levou séculos para ser aperfeiçoado.
Tabelas astronômicas ajudaram navegadores
Com a chegada da imprensa, no final do século XV, astrônomos passaram a publicar tabelas com posições calculadas do Sol, da Lua e dos planetas, além das datas previstas para eclipses.
Entre as obras mais conhecidas está a Ephemerides, do alemão Regiomontanus, publicada em Nuremberg em 1474. Outro trabalho importante foi o Almanach Perpetuum, do astrônomo Abraham Zacuto, impresso em Leiria, Portugal, em 1496.
Essas tabelas também tiveram utilidade prática para navegadores.
O eclipse usado por Colombo
Durante sua quarta viagem às Américas, em 1503, Cristóvão Colombo enfrentou dificuldades na Jamaica. Suas embarcações estavam danificadas e a tripulação dependia do fornecimento de alimentos dos indígenas taínos.
Quando os indígenas deixaram de fornecer os suprimentos, Colombo recorreu ao almanaque astronômico que carregava consigo.
A tabela indicava um eclipse lunar total para a noite de 29 de fevereiro de 1504.
Colombo teria avisado aos líderes locais que a Lua ficaria vermelha como sinal de descontentamento divino. Quando o eclipse ocorreu no horário previsto, os indígenas, assustados, retomaram o fornecimento de alimentos.
Newton muda a forma de prever eclipses
Um dos grandes avanços ocorreu no final do século XVII, com a formulação da lei da gravitação de Isaac Newton.
A partir dela, os movimentos da Terra e da Lua passaram a ser tratados matematicamente como movimentos orbitais. O antigo desafio de calcular o caminho da sombra de um eclipse solar sobre a superfície terrestre tornou-se progressivamente mais preciso.
Em 1715, Edmond Halley publicou um mapa indicando o horário e o trajeto de um eclipse total sobre a Inglaterra. O cálculo errou a passagem da sombra em cerca de 30 quilômetros — uma margem considerada impressionante para a época.
Durante quase dois séculos, entretanto, esses cálculos continuaram sendo feitos manualmente, com astrônomos e equipes trabalhando durante meses com tabelas matemáticas e logaritmos.
Computadores revolucionaram os cálculos
A partir do século XX, os computadores eletrônicos assumiram grande parte desse trabalho.
Atualmente, os cálculos utilizam efemérides extremamente precisas, que indicam a posição do Sol, da Terra e da Lua em diferentes momentos.
Os astrônomos também precisam considerar pequenas variações na velocidade de rotação da Terra. Para isso, utilizam o chamado Delta-T, parâmetro que permite relacionar o tempo astronômico ao tempo utilizado pelos relógios civis.
No eclipse ocorrido nesta semana, o ajuste foi de pouco mais de 72 segundos.
Quando serão os próximos eclipses?
O próximo eclipse solar total do planeta acontecerá em 2 de agosto de 2027. O fenômeno atravessará regiões do sul da Espanha, norte da África e Oriente Médio.
Próximo a Luxor, no Egito, a totalidade poderá durar até 6 minutos e 23 segundos, uma das maiores durações previstas para eclipses totais neste século.
O fenômeno, porém, não será visível do Ceará.
Para quem estiver no Estado, o próximo eclipse solar visível ocorrerá em 6 de fevereiro de 2027, de forma parcial.
Já um eclipse solar total poderá ser observado no Ceará somente em 12 de agosto de 2045.
Antes disso, outro fenômeno astronômico poderá ser acompanhado pelos cearenses: na madrugada de 28 de agosto, um eclipse lunar será visível em todo o Estado.
A precisão com que esses eventos são previstos hoje é resultado de uma trajetória que começou há milhares de anos, quando os primeiros astrônomos simplesmente começaram a registrar o céu.
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