Consumo de arroz, óleo, macarrão e café cresce após bloqueio das bets, aponta setor supermercadista

 

Foto: reprodução / Associação Cearense de Supermercados identifica aumento nas vendas no Ceará; dados nacionais indicam alta no varejo alimentar, mas representantes do setor de apostas contestam a relação direta com a proibição.

O consumo de produtos essenciais, como arroz, óleo, macarrão e café, cresceu nos supermercados do Ceará após o bloqueio das plataformas de apostas online, conhecidas como bets. A tendência foi identificada por empresas filiadas à Associação Cearense de Supermercados (Acesu).


Dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) também apontam crescimento no varejo alimentar em diferentes regiões do País após a medida. Segundo a entidade, os resultados indicam uma possível transferência de recursos antes destinados às apostas para o consumo das famílias.


Nordeste registra alta no consumo

De acordo com levantamento da Abras, o consumo no varejo alimentar brasileiro cresceu 6,5% entre os dias 5 e 11 de outubro, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O Nordeste registrou alta de 6,5%, enquanto as maiores variações, de 10,6%, foram observadas no Sul e na região formada por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro.


Na semana seguinte, entre 12 e 18 de outubro, o crescimento nacional foi de 6,3% em relação ao mesmo período de 2025. No Nordeste, a alta foi de 4,5%.


O secretário executivo da Acesu, Antônio Sales, reconheceu os dados divulgados e afirmou que as pesquisas apontam uma tendência de aumento do consumo nos supermercados após a proibição das apostas online.


Durante coletiva de imprensa realizada na quinta-feira (29), o vice-presidente da Abras, Marcio Milan, classificou o movimento como atípico e generalizado. Segundo ele, o crescimento foi observado em todas as regiões brasileiras e em diferentes formatos de estabelecimentos, incluindo supermercados, atacarejos e mercearias.


A entidade informou que o estudo levou em consideração fatores sazonais e comparações com resultados de períodos anteriores.


Economista vê relação possível entre as medidas e o consumo

O economista Erico Veras, professor do mestrado profissional em Administração e Controladoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), considera possível relacionar a restrição às apostas online ao aumento das compras nos supermercados.


Segundo ele, parte dos recursos que antes era destinada às plataformas pode ter sido redirecionada para despesas essenciais, especialmente a alimentação. O especialista também destaca que a devolução de valores investidos nas apostas pode ter contribuído para o crescimento observado inicialmente.


Veras, no entanto, ressalta que a continuidade dessa tendência precisa ser analisada com cautela. Novembro e dezembro são meses em que o consumo tradicionalmente aumenta, impulsionado por fatores como o pagamento do 13º salário.


Por isso, ainda não é possível determinar quanto do crescimento registrado pelo setor supermercadista está diretamente relacionado à proibição das bets.


Setor de apostas questiona relação de causa e efeito

O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa o setor de apostas, contesta a conclusão de que a proibição tenha provocado o aumento do consumo.


O presidente executivo da entidade, Carlos Lima, argumenta que outros fatores podem ter influenciado o orçamento das famílias no período, como o programa Desenrola Adimplentes, o pagamento do abono salarial, a redução de tributos sobre combustíveis e a bandeira tarifária verde na conta de energia elétrica em outubro.


Lima também afirma que o consumo brasileiro já apresentava crescimento antes da medida e que os dados divulgados não demonstram, por si só, que o dinheiro deixou de ser destinado às apostas e passou a ser utilizado na compra de alimentos.


O representante do IBJR ainda alerta para o possível crescimento do mercado ilegal de apostas após a restrição. Segundo dados citados pela entidade, os jogos clandestinos teriam aumentado 101% após a medida provisória.


Proibição das apostas é debatida no STF

A Medida Provisória nº 1.394/2026, mencionada no levantamento, foi assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro. Conforme o texto apresentado, as plataformas ficaram impedidas de receber recursos dos apostadores, e os bancos responsáveis pelo processamento dos pagamentos deveriam devolver os valores investidos até 14 de outubro.


O tema também está em discussão no Supremo Tribunal Federal (STF). Para terça-feira (3 de novembro), estão previstas audiências públicas convocadas pelo ministro Luiz Fux para debater o setor de apostas online.


Enquanto o varejo alimentar registra crescimento, a dimensão da influência da restrição sobre o consumo das famílias ainda é objeto de debate entre especialistas e representantes do setor.

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