Foto: Arquivo Pessoal/PH
Xico Sá. Colunista do Diário do Nordeste
Foi ali no caminho de Luiz
Gonzaga, no rumo da descida de Exu para o Crato, que o Movimento Salve a
Chapada do Araripe deu o seu primeiro grito do ano, no sábado (24). O fole
roncou em nome da causa mais urgente. É grito agora ou deserto logo mais.
Uma das áreas de proteção
ambiental mais devastadas do país, a região vive uma nova ameaça — nem tão nova
assim — de grupos pesados do agronegócio. Com latifúndios prontinhos para o
cultivo da soja, a “caixa d´água do sertão”, como é definida a chapada, corre
perigo.
Oásis de umidade que junta as
terras do Ceará, Pernambuco e Piauí, o fim da mata seria um desastre para o
Nordeste. Quase uma atualíssima Guerra dos Bárbaros (1683–1713), aquela que
dizimou os Kariris e outros povos indígenas das nossas bandas.
É protesto ou deserto.
A chapada de Padre Cícero,
beato Zé Lourenço, Bárbara de Alencar,
Gonzagão, Elói Teles, Patativa
do Assaré, Espedito Seleiro, Abidoral Jamacuru, Rosemberg Cariry, Ronaldo
Correia de Brito (Rio sangue), Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde — ave
memória! — corre do fogo, corre do monstro, corre perigo.
Como dizem os estudiosos da
crise climática, a “caixa d´água do sertão” é um coletivo daquelas fantásticas
máquinas de esfriamento global que não podemos nos dar ao luxo burro de
destruí-la.
Daqui a pouco, não sobrará nem
a trilha do Menininho, lá no sítio de Mané Coco. É protesto ou deserto. O que
seria um desastre não apenas para o Cariri, não apenas para o Nordeste, mas
para o Brasil, para a humanidade.
Pelo “Mistério das 13 Portas
no Castelo Encantado da Ponte Fantástica", caríssimo José Flávio Vieira, é
agora ou nunca mais.
Permita-me um sermãozinho
apocalíptico, nem que seja por 15 minutos, mas precisamos da oratória dos
beatos e conselheiros nessa hora.
Precisamos repetir aqui,
perdão pela insistência, a cartilha do pioneiro da causa. O profeta Cícero
Romão Batista espalhava mandamentos de defesa do meio ambiente há quase cem
anos, em um tempo em que nem se pronunciava a palavra ecologia. Fiquem com os preceitos
verdes do santo popular do Nordeste:
1 - Não derrube o mato nem
mesmo um só pé de pau.
2 - Não toque fogo no roçado
nem na caatinga.
3 - Não cace mais e deixe os
bichos viverem.
4 - Não crie o boi nem o bode
soltos; faça cercados e deixe o pasto descansar para se refazer.
5 - Não plante em serra acima
nem faça roçado em ladeira muito em pé; deixe o mato protegendo a terra para
que a água não a arraste e não se perca a sua riqueza.
6 - Faça uma cisterna no oitão
de sua casa para guardar água de chuva.
7 - Represe os riachos de cem
em cem metros, ainda que seja com pedra solta.
8 - Plante cada dia pelo menos
um pé de algaroba, de caju, de sabiá ou outra árvore qualquer, até que o sertão
todo seja uma mata só.
9 - Aprenda a tirar proveito
das plantas da caatinga, como a maniçoba, a favela e a jurema; elas podem
ajudar a conviver com a seca.
10 - Se o sertanejo obedecer a
estes preceitos, a seca vai aos poucos se acabando, o gado melhorando e o povo
terá o que comer. Mas se não obedecer, dentro de pouco tempo o sertão todo vai
virar um deserto só.
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