Uma parte expressiva do eleitorado nordestino que votou em Luiz Inácio Lula da Silva em 2022 combina uma avaliação positiva do atual governo com sinais de distanciamento em relação à política institucional. É o que mostra uma pesquisa qualitativa realizada pelo Núcleo Ypykuéra em parceria com o Observatório Político e Eleitoral (Opel), ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ- UFRRJ), com 198 pessoas que votaram em Lula nas últimas eleições presidenciais.
Entre os entrevistados das três maiores capitais nordestinas- Salvador, Fortaleza e Recife -, 63,9% afirmam que a vida ficou melhor no terceiro governo Lula em comparação com o governo anterior, de Jair Bolsonaro. Na descrição do presidente, 28,9% o associam à imagem de um político humano e próximo do povo e dos mais pobres. Outros 18,6% o definem como inteligente e estrategista, enquanto 12,4% o consideram o melhor líder ou presidente.
A percepção sobre as políticas do governo também revela quais medidas mais chegam a esse eleitorado. A redução da jornada e o fim da escala 6x1 aparecem em primeiro lugar, citados por 14,7% dos entrevistados. Na sequência estão o programa Pé-de-Meia (12,5%), as políticas de acesso às universidades (11,4%) e a redução do Imposto de Renda (10,9%).
No campo das medidas rejeitadas, a chamada “taxa das blusinhas” foi a mais mencionada, por 16% dos entrevistados. Um dado chama atenção, porém: 29% não souberam apontar uma política do governo da qual discordam.
A pesquisa também identifica espaço para uma disputa em torno da segurança pública: 61% dos entrevistados associam a esquerda a investimentos na melhoria da segurança, tema tradicionalmente apontado como um desafio para o campo progressista.
Distância do Parlamento
O levantamento mostra, ao mesmo tempo, uma relação mais crítica com a representação política. 68,9% dos eleitores de Lula das capitais nordestinas que participaram da pesquisa, são favoráveis à renovação dos parlamentares. A disposição convive com uma baixa conexão com os próprios representantes eleitos: 72,6% não se lembram em quem votaram para deputado federal nas últimas eleições, enquanto 77,6% não conseguem recordar o voto para deputado estadual.
Quando perguntados sobre os fatores que os levam a escolher um candidato, 24% apontam as propostas e 19,5% o histórico do candidato. O resultado sugere que, apesar da dificuldade de lembrar os representantes escolhidos anteriormente, critérios relacionados ao conteúdo da candidatura e à trajetória do político têm peso na decisão.
A desconfiança também aparece de forma expressiva. 53% afirmam desconfiar dos políticos e consideram que eles atuam em causa própria.
Realizado em dez capitais brasileiras, o estudo qualitativo ouviu 198 eleitores de Lula entre maio e julho de 2026 em grupos focais presenciais e analisou 2.973 menções codificadas. O levantamento busca compreender valores, percepções e expectativas desse eleitorado para o ciclo eleitoral de 2026.
Sobre o Núcleo Ypykuéra
O Núcleo Ypykuéra surgiu em 2021 a partir de diálogos entre a academia e a sociedade civil com o objetivo de abordar desafios contemporâneos relacionados à democracia e às desigualdades. Desde então, o Ypykuéra atua de forma independente na produção de conhecimento, formação de lideranças, articulação institucional e no desenvolvimento de projetos estratégicos. Seu trabalho conecta pesquisadores, movimentos sociais, organizações, comunicadores e gestores públicos, impulsionando ideias, práticas e iniciativas voltadas à renovação do campo progressista.
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