A Polícia Federal indiciou a deputada federal suplente Gorete Pereira (MDB-CE) e outras 28 pessoas no âmbito da Operação Sem Desconto, que investiga descontos associativos não autorizados em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Segundo relatório final da investigação obtido pela reportagem que divulgou o caso, Gorete é suspeita de organização criminosa, estelionato previdenciário qualificado e lavagem de dinheiro. A PF aponta que empresas de fachada registradas em nome de familiares e pessoas próximas à parlamentar teriam recebido pelo menos R$ 11 milhões.
De acordo com os investigadores, a deputada teria atuado como articuladora política do esquema, utilizando sua influência junto à cúpula do INSS para viabilizar e proteger Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) firmados com associações investigadas.
Procurado, o advogado da parlamentar, Waldir Xavier, afirmou que ela ainda não havia sido oficialmente informada sobre o indiciamento e, por isso, não poderia se manifestar sobre a natureza das suspeitas.
A defesa declarou confiar na apuração dos fatos, sob supervisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e afirmou ter “certeza de que a conduta por ela adotada foi pautada na licitude de seus atos”.
Investigação aponta contatos com dirigentes do INSS
O relatório da Polícia Federal aponta que Gorete mantinha contato frequente com funcionários do INSS, incluindo o então presidente do órgão, Alessandro Stefanutto. Segundo a análise de materiais apreendidos, a parlamentar o tratava como amigo e teria sido chamada de irmã por ele.
A investigação busca esclarecer a participação dos envolvidos na formalização e manutenção de acordos que permitiam descontos associativos em benefícios previdenciários.
Gorete é suplente do deputado federal Yuri do Paredão (MDB-CE), que está licenciado. Até janeiro de 2026, ela era filiada ao PL.
A parlamentar também disputou uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de 2026, mas não foi eleita. Segundo dados do sistema DivulgaCand, da Justiça Eleitoral, recebeu 3.615 votos.
Durante a campanha, Gorete estava submetida a medidas cautelares determinadas pelo ministro André Mendonça, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica e restrições de deslocamento. A defesa pediu autorização para dispensar o equipamento durante as atividades eleitorais, mas o pedido foi negado. O ministro, contudo, autorizou a circulação da parlamentar pelo estado.
Ainda conforme os dados eleitorais citados, Gorete recebeu R$ 670 mil para financiar a campanha e declarou gastos de R$ 669,2 mil. Ela também recebeu apoio público do deputado federal Eunício Oliveira (MDB), presidente estadual da sigla.
A Polícia Federal e o Ministério Público Federal chegaram a solicitar a prisão da parlamentar, mas o ministro André Mendonça negou o pedido em março e determinou o monitoramento eletrônico e a limitação de deslocamento.
Advogada e ex-dirigentes também foram indiciados
A investigação também resultou no indiciamento da advogada Cecília Rodrigues Mota, que presidiu a Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen) e a Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB).
Ela é suspeita de organização criminosa, estelionato previdenciário qualificado, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Segundo o relatório, sua atuação nas entidades coincidiu com o período em que teriam começado filiações fraudulentas e descontos não autorizados em benefícios previdenciários.
Os investigadores apontam que as associações teriam obtido novos acordos com o INSS mediante o pagamento de vantagens indevidas a servidores públicos. Conforme o documento, Cecília teria operacionalizado pagamentos por meio de contas bancárias próprias e de sua sociedade de advocacia.
A reportagem que divulgou o caso informou não ter localizado a defesa da advogada.
Filho de ex-diretor do INSS também é investigado
O relatório também aponta pagamentos que teriam sido destinados ao escritório de Eric Fidelis, filho de André Paulo Félix Fidelis, ex-diretor de Benefícios do INSS.
Segundo a investigação, Eric teria recebido R$ 2,4 milhões em 2024. Ele foi indiciado por suspeita de organização criminosa e lavagem de dinheiro. O pai foi indiciado pelos mesmos crimes, além de corrupção passiva.
A Polícia Federal aponta que André Fidelis assinou, somente em 2024, pelo menos sete Acordos de Cooperação Técnica que, somados, teriam permitido descontos de R$ 142 milhões por associações investigadas.
Em manifestação à reportagem, as defesas de Eric e André afirmaram que ainda não tinham acesso ao relatório final e, por isso, não estavam em condições de se posicionar sobre o conteúdo da investigação.
O indiciamento representa a conclusão da etapa investigativa da Polícia Federal em relação aos suspeitos, mas não equivale a uma condenação. A eventual responsabilização criminal depende da análise do Ministério Público e do julgamento pela Justiça.

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