Situações de violência psicológica e sexual em relacionamentos entre adolescentes ainda são pouco reconhecidas pelos próprios jovens, tanto quando aparecem como vítimas quanto quando envolvem comportamentos praticados por eles. É o que aponta um estudo desenvolvido no curso de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC).
A pesquisa foi realizada em 2022, com 80 estudantes de 14 a 18 anos de uma escola pública de Ensino Médio em Fortaleza. Os participantes analisaram diferentes situações envolvendo relacionamentos afetivos e foram questionados sobre a existência de violência, o tipo de agressão e quem seria responsável por ela.
Os resultados apontaram que os adolescentes apresentam mais facilidade para identificar situações de violência física do que comportamentos psicológicos ou sexuais.
Violência sexual é uma das mais difíceis de identificar
De acordo com a pesquisa, abuso sexual e estupro estiveram entre as situações menos reconhecidas pelos adolescentes do gênero masculino.
A psicóloga Gabriela Lira, responsável pelo estudo junto à professora Daniely Tatmatsu, explica que a dificuldade em identificar a violência psicológica já era esperada, devido à maneira como esse tipo de comportamento costuma ser naturalizado.
Diferentemente de uma agressão física, a violência psicológica não necessariamente deixa marcas visíveis imediatamente.
“Esse tende a ser um tipo mais naturalizado e, portanto, difícil de reconhecer”, explica Gabriela.
Já no caso da violência sexual, fatores culturais também podem interferir na percepção dos adolescentes sobre o que caracteriza consentimento.
Segundo a pesquisadora, uma relação sexual somente pode ser considerada consentida quando existe escolha livre e deliberada das pessoas envolvidas. Caso contrário, trata-se de uma relação não consentida.
Mulheres também podem ser reconhecidas como agressoras
Outro resultado considerado surpreendente pela pesquisadora foi a dificuldade dos adolescentes em reconhecer situações de violência quando a pessoa responsável pela agressão era uma mulher.
Gabriela avalia que isso pode estar relacionado à percepção cultural de que os homens são mais frequentemente associados ao papel de agressores.
“Todos os adolescentes também tinham dificuldade em reconhecer a violência quando o gênero de quem a estava cometendo era o feminino. Isso também foi surpreendente pra gente, ver o quanto mulheres são retiradas desse lugar de responsabilização”, afirma.
Meninos apresentaram maior dificuldade
Os dados apontaram ainda uma diferença importante relacionada ao gênero.
Os adolescentes do gênero masculino apresentaram maior dificuldade para identificar e nomear os diferentes tipos de violência apresentados durante a pesquisa.
Para Gabriela, essa dificuldade pode representar um problema porque determinados comportamentos violentos podem acabar sendo naturalizados entre os próprios jovens.
“É provável que esses meninos tenham cometido ou já tenham ouvido falar de comportamentos violentos em relacionamentos entre pares, e não consigam reconhecer aquilo como errado”, explica.
A pesquisadora alerta que a adolescência é justamente um período em que muitos jovens estão desenvolvendo suas primeiras relações afetivas e aprendendo formas de se relacionar.
O que é violência no namoro?
A pesquisa aborda o conceito de Violência no Namoro, definido como um padrão de comportamentos que pode se repetir ao longo do tempo e envolver o uso da violência para controlar, dominar ou submeter o parceiro ou parceira.
A discussão costuma estar mais associada à violência contra mulheres adultas e às relações conjugais. O estudo, porém, chama atenção para a necessidade de observar também os relacionamentos construídos durante a adolescência.
A dificuldade de reconhecer comportamentos abusivos pode fazer com que determinadas práticas sejam reproduzidas ou mantidas ao longo da vida adulta.
Pesquisa deu origem a projeto de prevenção
A partir dos resultados do estudo, foi criado o projeto de extensão “Previna – Prevenindo a Violência no Namoro”, desenvolvido por estudantes de Psicologia ligados ao laboratório.
O projeto realiza atividades em escolas públicas para discutir o tema com adolescentes.
Entre as ações estão rodas de conversa, oficinas e atividades psicoeducativas, utilizando inclusive recursos do teatro para abordar situações relacionadas aos relacionamentos.
Em dois anos, o projeto já realizou atividades na Escola de Ensino Médio Adauto Bezerra e no Liceu do Ceará.
A proposta é oferecer aos jovens ferramentas para reconhecer situações de violência e construir relacionamentos mais igualitários e saudáveis.
Redes sociais também preocupam
A pesquisadora destaca que o cenário atual exige atenção especial às redes sociais.
Como os dados da pesquisa foram coletados em 2022, Gabriela avalia que mudanças nas plataformas digitais e na circulação de conteúdos podem influenciar a maneira como adolescentes enxergam seus relacionamentos.
“É algo a ser observado, como informações nessas redes influenciam a forma como meninos se relacionam com meninas”, conclui.
O estudo reforça a importância de discutir consentimento, respeito, limites e formas de violência ainda durante a adolescência, antes que comportamentos abusivos sejam naturalizados nas relações afetivas.
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